

Ouro Preto: a beleza que desafia a pressa
O som do sino vem como um sopro sobre a montanha. É um chamado, um lamento, um lembrete. Em Ouro Preto, o tempo não passou — ele permanece, como se todas as épocas convivessem simultaneamente. E paira, em movimentos lentos, pelas ladeiras, pelos lampiões, pelos entalhes das igrejas. Cada pedra reverbera. Guarda um eco. Cada sombra esconde um poema, uma história, uma lenda. Chegar à antiga Vila Rica é como folhear um livro, cujas páginas são impressas em ouro, sangue e poeira. Mas não se engane: entre os rococós e os mármores, pulsa uma cidade viva, feita de música, de lembranças e de uma beleza que desafia a pressa.
- Texto: Alexandre Lalas
- Fotografia: Ricardo Garrido
Ouro Preto nasceu Arraial do Padre Faria, em 1698. O nome dado na ocasião era uma homenagem a Padre João de Faria Fialho, o primeiro capelão da Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, joia do barroco mineiro. Por sinal, Padre Faria é até hoje o nome de um antigo bairro em Ouro Preto. Com o começo do século XVIII, a exploração do ouro na região ganhou tração. E com a riqueza, veio a guerra. Entre 1707 a 1709 ocorreu a Guerra dos Emboabas, conflito entre os bandeirantes paulistas contra portugueses e migrantes de outras regiões que disputavam o direto de exploração das jazidas de ouro descobertas no estado.
Finda a guerra, diversos vilarejos ao redor do Arraial do Padre Faria se uniram e formaram o que foi chamado de Vila Rica de Albuquerque, em honra ao então governador das capitanias de Minas Gerais e São Paulo Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho. No entanto, a homenagem durou pouco e um ano depois os portugueses passaram a chamar o lugar apenas de Vila Rica. As minas de ouro eram o grande chamariz. E tamanha riqueza contribuiu para que em 1720, Vila Rica fosse transformada em capital das Minas Gerais.
A cidade manteve-se capital de Minas Gerais até 1897, quando começou a nascer o que seria Belo Horizonte, na época, ainda uma cidade planejada e chamada Curral del Rey. Mas a perda de status não diminuiu a importância de Ouro Preto na história e na cultura do Brasil. Em 1938, a cidade foi uma das primeiras no país a ser tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Décadas mais tarde, em 1980, o reconhecimento foi ainda maior: Ouro Preto foi a primeira cidade brasileira a ser considerada pela UNESCO Patrimônio Mundial.
Passeando por Ouro Preto
Comece o passeio ao cair da tarde, quando o sol bate na fachada da Igreja de São Francisco de
Assis e acende em dourado as volutas talhadas por Aleijadinho. Respire fundo. Sinta o cheiro de
pedra antiga e café passado. É bem possível que ao longe surjam os primeiros acordes de um violão escapando por uma janela semiaberta de uma república de estudantes. Ouro Preto canta mesmo quando está em silêncio. E convida a caminhar não só pelas ruas da cidade, mas pelas palavras que ela inspirou e cujas vibrações se encontram nesta geografia de alma barroca.
Leia Cecília Meireles ao lado do Chafariz dos Contos. Pense em Tiradentes diante da antiga
cadeia. Ouça Milton Nascimento quando a névoa cobre os telhados como um véu de lembrança. Sinta a presença de Marília nas sacadas floridas. E quando as pernas se queixarem de tantas ladeiras, deixe o corpo descansar e pare num café escondido na Rua Direita. Peça um pão de queijo, um bolo e um café forte. Abra um livro. E se deixe levar. Ouro Preto não é só cidade: é um estado de alma.
Onde ir
Para facilitar a vida do nosso leitor, montamos um pequeno guia com algumas das tantas atrações de Ouro Preto. Os lugares selecionados não apenas formam o coração do Centro Histórico de Ouro Preto, mas também se conectam por meio das ladeiras, becos de pedra e mirantes naturais, criando um percurso denso em história, arte e memória.
Praça Tiradentes
Marco central da cidade. Antes chamada de Praça da Independência, passou a homenagear Tiradentes após a proclamação da República. É cercada por casarões coloniais e pontos de visita obrigatória. O chão de pedra guarda o peso da história da Inconfidência. No centro da praça, a estátua de Joaquim José da Silva Xavier foi erguida em 1894, apontando para o céu. Ao redor, estão edifícios históricos, como o Museu da Inconfidência, o antigo Palácio dos Governadores (atual Escola de Farmácia), e casarões que abrigam lojas, cafés e pousadas.
Museu da Inconfidência
Fundado em 1938 e instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, reúne documentos, objetos e restos mortais de inconfidentes. A ambientação preserva a solenidade de uma época de rebeldia e punição. Entre os destaques, o salão nobre com mobiliário original e teto pintado, documentos raros, como cartas e autos de devassa e uma cela preservada no subsolo. Mas o ponto alto da visita, um momento intenso que carrega simbolismo e reverência, é o Panteão com os restos mortais dos inconfidentes.
Igreja de São Francisco de Assis
Obra-prima do barroco mineiro. Projeto de Aleijadinho, com pinturas de Mestre Ataíde. O teto da nave, com a imagem de Nossa Senhora da Porciúncula, cercada por anjos de feições mestiças, parece flutuar. Vale prestar atenção na fachada, esculpida em pedra-sabão. Na sacristia, relíquias sacras e peças do ciclo do ouro. É uma das maiores obras da arte colonial brasileira.
Feira de Pedra-Sabão
Fica em frente à Igreja de São Francisco, no Largo do Coimbra. Entre as barracas que trazem as inevitáveis bugigangas pega-turista, vale garimpar os verdadeiros artesãos, muitos deles trazem tradição familiar no ofício, e exibem artigos em pedra-sabão esculpida que vão desde imagens sacras e objetos utilitários, a peças decorativas e verdadeiras obras de arte contemporânea.
Igreja de Nossa Senhora do Pilar
Construída entre 1711 e 1733, é uma das igrejas mais ricas do país em ornamentação: estima-se que tenha mais de 400 kg de ouro, que recobrem os altares, colunas e ornamentos, em pó e folhas. O interior impressiona pela opulência e simetria barroca. No subsolo, há o Museu de Arte Sacra, com esculturas, cálices, vestes litúrgicas e objetos cerimoniais do período colonial.
Casa dos Contos
Um dos mais importantes exemplares da arquitetura civil colonial. Era usada como residência de contratadores de impostos e também como sede da administração colonial. Depois, foi casa da moeda, alfândega, e prisão. Abriga exposição permanente sobre economia colonial e escravidão. Uma das atrações é a senzala preservada, com iluminação baixa e clima úmido, que transmite a brutalidade da época.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
Construída pela Irmandade dos Homens Pretos entre 1765 e 1785, tem uma arquitetura atípica para a região: planta oval, com fachada curva, inspirada no barroco português. Era uma das poucas igrejas onde escravizados e libertos podiam frequentar livremente. O interior é simples, sem o ouro e a riqueza exibidos em outras igrejas, mas é carregado de espiritualidade e história. Representa a fé, a resistência e a resiliência de uma população excluída, mas devota e ativa na vida religiosa local.
Casa da Ópera (Teatro Municipal)
Inaugurado em 1770, é o mais antigo teatro em funcionamento das Américas. A estrutura é de madeira, com camarotes decorados e palco em forma de ferradura. Já recebeu figuras históricas como D. Pedro II e artistas consagrados nas Minas Gerais. Ainda hoje abriga peças de teatro, concertos e festivais. Vale a pena fazer a visita guiada para conhecer os bastidores e ouvir histórias dos séculos passados.
A Mina do Chico Rei
Ouro Preto é, como era de se esperar, cheio de minas. Uma das mais visitadas é a de Chico Rei. Não tanto pela extensão ou pela riqueza mineral, mas sim pela força simbólica que carrega. Nos escuros e apertados túneis da mina, misturam-se fatos, lendas, história, dor e resistência. A mina fica no bairro Antônio Dias, bem ao lado da Igreja de Santa Efigênia. A parte visitável é relativamente pequena, cerca de 100 metros de túneis escavados no século XVIII. As condições reais de trabalho são preservadas: túneis estreitos, escuros e úmidos, com teto baixo e paredes irregulares. A iluminação é discreta, para reforçar a sensação de clausura vivida pelos escravos.
A Lenda
Chico Rei seria o nome cristianizado de Gálanga, um rei africano da região do Congo, capturado com sua família durante uma expedição portuguesa. Ele chegou ao Brasil por volta de 1740, junto a um grande grupo de súditos, vendido como escravo para trabalhar nas minas de Vila Rica. A tradição diz que Gálanga foi comprado por um contratador e enviado para trabalhar em uma mina na região de Ouro Preto. Pouco a pouco, com inteligência, habilidade e capacidade para liderar, conseguiu guardar pequenas porções de ouro que recolhia escondido nos cabelos crespos — e também com a ajuda de outros cativos que confiavam nele. Com o tempo, comprou sua liberdade.
Depois, a de sua família. E por fim, adquiriu a mina onde havia trabalhado como escravo. Rebatizado como “Chico Rei”, tornou-se figura querida entre o povo, ajudando a libertar outros escravizados e promovendo festas e ações comunitárias. A história de Gálanga foi contada no filme Chico Rei, de 1985, dirigido por Walter Lima Jr, e com Severino D’Acelino no papel principal.
Parque Natural Municipal das Andorinhas
A região no entorno de Ouro Preto é abundante em beleza natural. Entre as mais acessíveis atrações – fica apenas a 5km do Centro Histórico da cidade – é o Parque Natural Municipal das Andorinhas. O lugar é lar de trilhas, mirantes e muitas cascatas, entre as quais, destaque para a Cachoeira das Andorinhas. Trata-se de uma queda d´água de aproximadamente 10 metros, e fica no interior de uma formação rochosa que mais parece uma gruta. A luz natural no interior da cachoeira cria um arsenal de cores e texturas que gera um ambiente único e impactante.
Onde comer:
Bené da Flauta
Fica ao lado da Igreja de São Francisco de Assis. Bené da Flauta era um músico e escultor local conhecido e querido na cidade. Arquitetura colonial e pratos que exploram o que de melhor existe na culinária mineira. Mas extrapolam as fronteiras em pratos como o Bacalhau Tudo é Jazz, posta do peixe grelhado no azeite e servido com purê de batatas e legumes da estação.
Endereço: Rua São Francisco de Assis, 32
Casa do Ouvidor
Tradicional restaurante da cidade, com mais de 50 anos de excelentes serviços prestados à gastronomia ouro-pretana. Fica em um casarão histórico na Rua Direita. Com decoração que remete ao período colonial, oferece pratos tradicionais com um toque contemporâneo. O Frango ao Molho Pardo é um clássico da casa.
Endereço: Rua Conde de Bobadela, 42
Restaurante Chafariz
Aberto desde 1958, o restaurante funciona no sobrado onde nasceu o poeta Alphonsus de Guimaraens. Oferece um buffet variado de pratos típicos mineiros em um ambiente que preserva a história local. Aos sábados, feijoada com cachaças artesanais.
Endereço: Rua São José, 167
Contos de Réis
Instalado em um casarão do século XVIII, o restaurante combina a beleza do ambiente com a riqueza da culinária mineira. É conhecido por pratos fartos e sobremesas caseiras. O feijão tropeiro é um dos carros-chefes do menu.
Endereço: Rua Camillo de Brito, 21
O Passo Pizza Jazz
Situado em um casarão do século XVIII, o badalado restaurante oferece uma combinação de pizzas artesanais, pratos italianos e música ao vivo. É conhecido por sua extensa carta de vinhos e ambiente acolhedor.
Endereço: Rua São José, 56
Escadabaixo
Localizado na Rua Direita, o Escadabaixo é um bar e restaurante que une a simplicidade da comida mineira com toques da alta gastronomia. O ambiente é descontraído, com música ao vivo em alguns dias. O Strudel de maçã está no cardápio há mais de duas décadas.
Endereço: Rua Direita, 122
Café Geraes
Anexo ao Escadabaixo, o Café Geraes combina a sofisticação de um bistrô com a simplicidade mineira. Oferece opções para vegetarianos e um ambiente acolhedor. O pão de queijo acompanhado de um café coado na hora é irresistível.
Endereço: Rua Direita, 122
Onde Ficar:
Hotel Solar do Rosário
O Hotel fica no coração de Ouro Preto. Mais que um abrigo para os viajantes, trata-se de um relicário de memória mineira. Instalado em um casarão do século XIX, o Solar não se limita a observar o tempo passar: ele o conserva nas paredes, nos detalhes, no silêncio que ecoa pelas tábuas corridas de madeira e nas sacadas que se debruçam sobre os telhados da cidade colonial.
Ali, o luxo é outro. Não o brilho moderno das grandes redes internacionais, mas o conforto que sabe dialogar com a história. Cada quarto é um convite à contemplação. Móveis de época e obras de arte compõem uma estrutura cuidadosamente restaurada, em uma perfeita sincronia entre passado e presente. O hotel conta com piscina, sauna, academia, restaurante, capela e até um jardim suspenso, com vista para as igrejas de São Francisco de Paula e Nossa Senhora do Rosário, esta última, uma joia do barroco negro, cuja silhueta domina a paisagem desde o século XVIII.
Endereço: Rua Getúlio Vargas, 270, Bairro Rosário, Ouro Preto
Vila Galé Collection Ouro Preto
Recém-inaugurado, estalando de novo, esta unidade do Vila Galé fica em Cachoeira do Campo, nos arredores de Ouro Preto. O prédio onde foi a sede do primeiro regimento de cavalaria de Portugal no Brasil, foi todo restaurado para receber o hotel. São 311 quartos, cinco piscinas aquecidas, o Satsanga Spa & Wellness, uma área de eventos para até 900 pessoas e 15 hectares de plantação de vinha e olival.
Endereço: Rodovia dos Inconfidentes, Km 78, Cachoeira do Campo, Ouro Preto











