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Arlberg Weinberg

Na Áustria, o vinho brilha em Lech, o berço do esqui alpino

É difícil resistir ao charme dos Alpes austríacos. O mundo inteiro pôde vislumbrar seus encantos — prados verdes bucólicos e lagos nas montanhas — nas telonas, através do épico musical americano A Noviça Rebelde. E, quando a maioria das pessoas imagina essa região da Mitteleuropa, visualiza-a coberta de tons de branco durante o inverno, com gôndolas e teleféricos trabalhando sem parar para levar os esquiadores para cima e para baixo em suas inúmeras pistas. É aqui, na parte ocidental dessa cadeia de montanhas, que se encontra o berço do esqui alpino: a idílica vila de Lech. Situada a mais de 1,4 mil metros acima do nível do mar e cercada por picos impressionantes, como o Omeshorn (2.557 m) e o Hochvogel (2.529 m), Lech hoje está rapidamente se tornando famosa pelo vinho, já que, todo mês de dezembro, sedia o principal simpósio de vinhos da Áustria, o Arlberg Weinberg.

  • Texto: Ivan Carvalho
  • Fotografia: Gaia Cambiaggi
06 de Julho, 2026

Essa conferência de vários dias reúne críticos de vinhos, jornalistas, especialistas do setor e produtores para discutir os principais temas da atualidade — mudanças climáticas, o aumento do neoproibicionismo à medida que os países procuram restringir o consumo de vinho — num cenário pitoresco, onde degustações regulares de vinhos austríacos se misturam com debates de qualidade e jantares deliciosos. O surgimento deste evento deve-se a uma empreendedora produtora de vinho austríaca, Dorli Muhr, que também é uma importante guru de relações públicas, graças à sua consultoria Wine+Partners, sediada em Viena, cujos clientes incluem os Douro Boys. Em 2013 e 2014, Muhr organizou degustações simples, à tarde, com hoteleiros locais em Lech, para lhes dar a oportunidade de provar seus vinhos Blaufränkisch da região de Carnuntum, no leste do país, quando uma visão lhe surgiu diante dos olhos. “Eu estava a chegar no início da temporada de esqui, pouco antes de os hotéis receberem os hóspedes e todos esses lugares incríveis começarem a ganhar vida, com adegas verdadeiramente de classe mundial. Pensei: por que não criar um evento que celebrasse o turismo de alto padrão aqui, onde o vinho pode desempenhar um papel de destaque?”

Para quem visita Lech pela primeira vez, a impressão inicial da vila não transmite a vibração que normalmente se encontra em outros resorts de alta altitude (pense nos playgrounds dos super-ricos, como St. Moritz ou Gstaad). Em vez disso, os frequentadores de Lech não procuram exibir sua riqueza ou criar um cenário pós-esqui chamativo, como em Kitzbühel. Você não encontra Bentleys estacionados na neve nem butiques de moda de marcas famosas (Louis Vuitton, Moncler etc.). Lech minimiza sua riqueza. “As pessoas já ganharam seu dinheiro e, aqui em Lech, não sentem a pressão de ter que exibi-lo para os outros”, explica Clemens Riedl, ex-profissional de TI e cofundador da vinícola vienense Trinkreif, que tem sido fundamental para ajudar Muhr a transformar o encontro Arlberg Weinberg em um evento de classe mundial.

Outro fator que torna a região atraente é o fato de Lech ser relativamente pequena. Na maior parte do ano, ela tem apenas 1.845 habitantes, mas, no inverno, esse número cresce para 15 mil. Aqui, o foco está diretamente em hotéis de luxo com restaurantes de serviço completo. Enquanto Kitzbühel tem 9 mil apartamentos espalhados pelas pistas, Lech tem menos de 10% disso dedicado a aluguéis, preferindo atender aqueles que desejam ser mimados com estilo em suítes confortáveis, onde se encontra um concierge, sommelier e um café da manhã completo com bircher muesli, queijos alpinos e pães integrais de padarias locais.

Entre adegas e magnums

Depois, há as adegas bem abastecidas. Em uma propriedade na encosta da montanha, o Burg Vital Resort, cinco estrelas, situado em um pequeno vilarejo acima de Lech — onde os hotéis são servidos por túneis subterrâneos para garantir o suprimento mesmo em tempestades de neve —, o estoque atual de vinhos chega a mais de 40 mil garrafas, superando facilmente o hotel de luxo mais famoso da Suíça, o Badrutt’s Palace, em St. Moritz. Para os amantes de garrafas de grande formato (pense em double magnums de Château d’Yquem), aventure-se do outro lado da montanha até o Hospiz Alm, em St. Christoph am Arlberg. Este chalé de esqui, que possui um escorregador à moda antiga para permitir que os clientes deslizem do restaurante até os amplos espaços da adega, guarda mais de 7 mil garrafas, muitas delas em formatos de 12, 15 e 18 litros, enchidas exclusivamente para o proprietário Adi Werner pelos principais produtores de Bordeaux — e que devem ser consumidas no local, já que os produtores e as adegas francesas não desejam ver essas garrafas gigantes vazias nas mãos de falsificadores.

Lugares como o Hospiz Alm e o hotel Burg Vital são regularmente utilizados como locais para eventos noturnos durante o Arlberg Weinberg, para mostrar os talentos dos sommeliers e chefs locais. Durante o dia, Dorli Muhr, juntamente com sua equipe da Wine+Partners, organiza palestras e degustações no recém-construído centro de congressos de Lech, no centro da cidade — uma atraente estrutura de vidro e madeira com vista para as pistas. Nas edições anteriores, Muhr garantiu a presença de figuras importantes do mundo do vinho, desde a famosa crítica britânica, colunista do Financial Times e Master of Wine Jancis Robinson até a também MW francesa Isabelle Legeron, fundadora da RAW WINE, feira que desde 2012 cresceu e se tornou a maior comunidade mundial de produtores de vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais de baixa intervenção.

No país da Grüner Veltliner

As degustações às cegas entre as palestras no Arlberg Weinberg concentram-se no progresso feito pelos produtores austríacos, principalmente aqueles que buscam tornar o país conhecido por mais do que sua famosa variedade Grüner Veltliner. Uma apresentação matinal foi conduzida por Patrick Schmitt, Master of Wine e editor-chefe da The Drinks Business, no Reino Unido. Juntamente com o escritor Aleksandar Zecevic, da Wine Enthusiast, eles aprofundaram a percepção das variedades de vinho branco no mundo atual. Por exemplo, dado que o Sauvignon Blanc é mais consumido no Reino Unido (30% das vendas de vinho branco no país, em comparação com 20% do Chardonnay) e tem um preço mais elevado, a discussão explorou como os produtores austríacos poderiam se beneficiar disso. Felizmente, dois importantes críticos de vinhos austríacos, Willi Balanjuk e Daniela Dejnega, apresentaram uma seleção impressionante de Chardonnays e Sauvignon Blancs. Degustadores da Alemanha, Reino Unido, Itália e outros países ficaram muito impressionados com os Sauvignon Blancs da região de Styria, no sul do país. O prêmio de melhor garrafa foi para o enólogo Armin Tement, por seu Sauvignon Blanc Ried Zieregg 2017.

Essas degustações especiais, realizadas no centro de convenções de Lech, são apenas um exemplo de como a vila está se posicionando como a “Davos do Vinho”. Alguém que tem muito orgulho dos eventos anuais do Arlberg Weinberg é Chris Yorke, CEO do Conselho Austríaco de Marketing de Vinhos. “Por décadas, este tem sido o principal resort de esqui da Áustria, então fazia sentido para nós apresentarmos os vinhos premium do país aqui.”

As acomodações são excelentes e, ao mesmo tempo, descontraídas, já que não há grandes redes de hotéis em Lech. Em vez disso, encontram-se propriedades familiares com muito charme. Veja o Hotel Kristiania, administrado por Gertrud Schneider, filha do primeiro campeão olímpico de esqui alpino da Áustria e fundador do hotel, Othmar Schneider. Sua propriedade transborda aconchego, com cadeiras vintage e uma sala de café da manhã com vista para o centro da cidade. Os quartos no andar de cima apresentam armários antigos, alguns ainda decorados com um toque dos anos 1970. A arte também desempenha papel importante: Gertrud recebe galeristas alemães em um espaço especial nas instalações e exibe obras da coleção familiar em todo o hotel — repare na gravura de Roy Lichtenstein na área de jantar.

Um hotel pra lá de gourmet

Para uma refeição suntuosa, aventure-se pela estrada até o Rote Wand Gourmet Hotel, cujo nome diz tudo. Além das maravilhosas opções de café da manhã — os austríacos são exímios em prepará-lo para enfrentar as pistas com uma grande variedade de delícias matinais à mesa —, o hotel modernista tem uma cabana de madeira de dois andares em frente à sede, que abriga seu próprio conceito de mesa do chef. Liderado pelo chef Julian Stieger, natural da Alta Áustria, cujo currículo inclui passagens por restaurantes de classe mundial como o Geranium, em Copenhague, e o Eleven Madison Park, em Nova York, o Rote Wand Chef’s Table ostenta atualmente duas estrelas Michelin. A experiência começa no andar térreo com um aperitivo em um pequeno salão, antes que os hóspedes subam para a elegante área de jantar no piso superior, com detalhes em madeira aconchegante e um balcão angular em forma de ferradura.

Stieger seduz o paladar com seus pratos modernos e complexos, sem frescuras desnecessárias. Experimente o delicioso Blutwurstbrot, um pão macio e úmido coberto com compota de maçã e morcela — frutado e delicadamente picante —, finalizado à mesa com lascas de trufas. A caça local, abatida no inverno, é uma especialidade aqui, assim como o pato maturado a seco — crocante por fora, macio por dentro — servido com molho cremoso aromático de cogumelos e óleo de cebolinha. Durante o Arlberg Weinberg, a Chef’s Table de Stieger foi palco para a enóloga Occhipinti apresentar aos clientes sua linha completa de vinhos, desde o delicioso tinto PT Frappato, de vinhedo único, até o excelente branco SM feito da uva Grillo, com salinidade e complexidade notáveis.

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