

Barca-Velha
O ícone português tem nova edição… e muito mais história!
Há um vinho tinto do Douro que revolucionou não só uma época como toda uma região. O Barca-Velha, da Casa Ferreirinha, insígnia Sogrape Vinhos, é uma aventurança digna de filme e que por esses dias conheceu a 21ª edição. Mas, prezado colecionador, atenção que nem tudo é boa notícia quando falamos da chegada do 2015…
- Texto: José João Santos
- Fotografia: Ricardo Garrido e D.R.
Há quem diga que o Barca-Velha é um vinho caro. Quanto custa um Rolls-Royce ou um Aston Martin? Quanto pagamos, afinal, por um grande ícone mundial de Bordeaux, da Borgonha ou de Champagne? O mercado, sempre o mercado, tratará de estabelecer o preço final do mais icônico vinho tranquilo português, que representa a concretização do sonho de uma mente tão inquieta quanto genial – a de Fernando Nicolau de Almeida.
O enólogo criador do Barca-Velha começou a imaginá-lo ainda nos anos 40 do século XX. Há livros que aprofundam o tema, mas o maior segredo enológico, numa altura em que o Douro não só parecia como verdadeiramente estava mais longe e quase inacessível do Porto, esteve na refrigeração. Os blocos de gelo transportados em caminhões a partir da Lota de Matosinhos foram a chave que descodificou muitos dos processos de controle de fermentação e temperatura das uvas que, naquele tempo, estavam sobretudo pensadas para o Vinho do Porto.
Há a história e as estórias que se contam a pretexto de um vinho que se afirmou para lá disso, elevando-se ao patamar de mito. Luis Sottomayor, o atual enólogo, relembra a de um fantasma, um padre sem cabeça, que um dia terá tentado estrangular o então encarregado dos armazéns de Vila Nova de Gaia, numa noite de vindimas no Douro, na Quinta do Vale Meão, então pertença da Casa Ferreirinha. Terão sido os vapores do Barca-Velha a criar o dito padre?

Três, isso mesmo: somente três enólogos são até hoje os criadores do Barca-Velha. Fernando Nicolau de Almeida, o mentor de um vinho cuja primeira colheita é de 1952 (os livros de registros apontam 17 meias pipas de 225 lts.); José Maria Soares Franco, o continuador do sonho e que decisivamente o ajudou a afirmar por diferentes edições; e Luis Sottomayor, que ainda conheceu o mestre ao entrar na empresa, em 1989, que durante anos trabalhou ao lado de “Zé Maria” e que agora assina o terceira Barca-Velha de plena responsabilidade (depois de participar na elaboração do 2000 e de ter elaborado o 2008 e o 2011).
“Com maior distribuição a nível externo queremos aumentar a reputação e a notoriedade internacionais do Barca-Velha e, com isso, dos vinhos portugueses”, explicou Fernando da Cunha Guedes, presidente da Sogrape Vinhos.
Barca-Velha 2015
Austero como o 2011, equilibrado como o 2008. Por estes dias, os colecionadores de vinhos icônicos poderão andar mais agitados do que o habitual. Se tiverem em mira o novo Barca-Velha 2015 ficam a saber que do dito resultaram 16.567 garrafas, ou seja, pouco mais de metade das 30.753 unidades do 2011. Deste total, a alocação contempla cerca de 50% para exportação, sobretudo a pensar nos mercados britânico, norte-americano e brasileiro.
" />Barca-Velha 2015
Austero como o 2011, equilibrado como o 2008. Por estes dias, os colecionadores de vinhos icônicos poderão andar mais agitados do que o habitual. Se tiverem em mira o novo Barca-Velha 2015 ficam a saber que do dito resultaram 16.567 garrafas, ou seja, pouco mais de metade das 30.753 unidades do 2011. Deste total, a alocação contempla cerca de 50% para exportação, sobretudo a pensar nos mercados britânico, norte-americano e brasileiro.
“Com essa maior distribuição a nível externo queremos aumentar a reputação e a notoriedade internacionais do Barca-Velha e, com isso, dos vinhos portugueses”, explicou Fernando da Cunha Guedes, presidente da Sogrape Vinhos, em declarações à Gula.
Para colocar os nervos dos colecionadores ainda mais em franja, há um aumento de preço, na ordem dos 15%, refletido pela Sogrape nos parceiros comerciais. Mas, caros colecionadores, não é cada vez mais assim com os grandes vinhos do mundo? Além disso, há uma coisa que o Barca-Velha tem e que poucos vinhos DOC portugueses do mesmo patamar podem ostentar: 72 anos de um historial que começou por parecer loucura e acabou por revolucionar a interpretação do Douro, até então exclusivamente centrada em Vinho do Porto.
“Foi um ano difícil, com desafios”. Assim é interpretado o ano de 2015 pelo enólogo Luis Sottomayor. O inverno foi frio e seco, a primavera foi quente e seca, mas o agosto e o setembro relativamente frescos e com alguma chuva permitiram um final de maturação equilibrado, apesar da vindima precoce.
A composição do novo Barca-Velha continua dominada pelas castas Touriga Franca (43%) e Touriga Nacional (40%), sendo de sublinhar a estreia – e logo com um interessante percentual – do Sousão (10%), havendo ainda sal e pimenta do Tinto Cão (5%) e da Tinta Roriz (2%). O contributo do Sousão traduziu-se num aporte de estrutura e acidez.
A matéria-prima é um seleção apurada das melhores uvas da Quinta da Leda, muito em particular dos talhões da vinha Apeadeiro, 5,6 hectares de Touriga Franca. Juntam-se outras parcelas da Sogrape, da Leda e da subregião do Douro Superior. O longo estágio em barricas de carvalho francês (75% novo, 25% de segundo uso) foi de cerca de 18 meses, repousando depois em garrafa. Nesse primeiro tempo de maturação, a enologia da Casa Ferreirinha trata-o como Douro Especial, porque não sabe se resultará em Barca-Velha, em Reserva Especial ou se simplesmente não ascende a nenhum desses patamares. Porém, Luís Sottomayor admite que o 2015 não lhe suscitou grandes dúvidas desde o início.
Os sete anos em garrafa confirmaram as melhores suspeitas e, em janeiro deste ano, o enólogo declarou novo Barca-Velha à administração da Sogrape.
“O vinho vai para o mercado quando consideramos que começa a mostrar o potencial e a qualidade, que começa a dar prazer à mesa. Mas é um vinho que preparamos para envelhecer muitos anos em garrafa”, explica.
Luis Sottomayor já teve oportunidade de provar todas as edições do Barca-Velha e lembra “quão extraordinários” estavam o 1952 e o 1954. A pergunta tornou-se, assim, inevitável. Quando abrir uma garrafa deste 2015? “Já tem quase 10 anos, precisará talvez de mais 10 ou 15 anos para atingir o patamar máximo de perfeição e, depois, ficará nesse patamar por muitos anos”.
Verde tinto ou Barca-Velha?
Os mitos em torno de um vinho tão icônico são, por vezes, difíceis de desfazer. É sabido que o enólogo chefe da A.A. Ferreira, Fernando Nicolau de Almeida, acalentava o sonho de elaborar um tinto de classe mundial. E chamou Émile Peynaud, renomado professor da Universidade de Enologia de Bordéus, para provar os seus… verdes tintos. Segundo conta João Nicolau de Almeida, o pai aproveitou para mostrar ao enólogo francês os vinhos tintos experimentais do Douro. Hoje não é difícil adivinhar em quais Peynaud terá aconselhado o amigo a concentrar-se…
Das uvas se faz o vinho
O Barca-Velha nasce das castas recomendadas da Região Demarcada do Douro, como Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinto Cão. Originalmente, as uvas para este vinho tão especial provinham da Quinta do Vale Meão, bem como de outras vinhas de diferentes altitudes, tendo sempre em consideração o perfil e a qualidade de cada vindima. Porém, e no sentido de assegurar a quantidade e qualidade de matéria-prima tida como necessária, a A.A. Ferreira decide erguer de raiz a Quinta da Leda, em Almendra, que oferece diferentes exposições e altitudes. Hoje, são as uvas provenientes desta quinta que asseguram o caráter, perfil e qualidade de cada Barca-Velha. A natureza, já se sabe, faz o resto.

“Fernando Nicolau de Almeida ficaria muito feliz ao perceber que o sonho dele mantém-se e que o vinho continua fiel ao perfil que ele imaginou e desenhou”, acredita o discípulo Luis Sottomayor.
Notas de prova:98 – Gula Recomenda
BARCA-VELHA 2015
Portugal/ Douro / Tinto / Sogrape Vinhos
Rubi escuro. Notas de cedro, mato e cogumelos. Complementos de bergamota, cereja negra e flor silvestre. O tanino é imperial e impõe-se ao primeiro impacto de prova. A estrutura tem a solidez da rocha-mãe mas não perde a elegância e beneficia da acidez. O final é profundo, concentrado, teimoso e mais apimentado, com um toque de folha de tabaco. Pela austeridade, lembra o 2011; pelo equilíbrio, recorda-nos 2008. Uma coisa é certa: vai perdurar no tempo. O Barca-Velha é importado com exclusividade pela Zahil – JJS
Preço: R$ 10.870
Notas de prova:
98 – Gula Recomenda
BARCA-VELHA 2015
Portugal/ Douro / Tinto / Sogrape Vinhos
Rubi escuro. Notas de cedro, mato e cogumelos. Complementos de bergamota, cereja negra e flor silvestre. O tanino é imperial e impõe-se ao primeiro impacto de prova. A estrutura tem a solidez da rocha-mãe mas não perde a elegância e beneficia da acidez. O final é profundo, concentrado, teimoso e mais apimentado, com um toque de folha de tabaco. Pela austeridade, lembra o 2011; pelo equilíbrio, recorda-nos 2008. Uma coisa é certa: vai perdurar no tempo. O Barca-Velha é importado com exclusividade pela Zahil – JJS
Preço: R$ 10.870
Uma ousadia… com blocos de gelo
O Barca-Velha é a materialização de uma ousadia do eterno Fernando Nicolau de Almeida. No Douro quase inacessível de meados do século XX, saído da II Grande Guerra, carregado de sonhos por cumprir e de temores quanto ao futuro, o enólogo conseguiu desafiar a lógica.
Setenta e dois anos volvidos desde a primeira edição, o que diria o criador deste 2015? “Fernando Nicolau de Almeida ficaria muito feliz ao perceber que o sonho dele mantém-se e que o vinho continua fiel ao perfil que ele imaginou e desenhou”, acredita o discípulo Luis Sottomayor.
Em Portugal, a cozinha do Paço Ducal de Vila Viçosa, no Alentejo, um dos monumentos mais notáveis relacionados com a história monárquica de Portugal, durante séculos sede da Casa de Bragança, acolheu o evento de lançamento oficial do 21º Barca-Velha, que decorreu dia 22 de maio, durante um jantar de degustação com autoria do chefe João Rodrigues (“Personalidade do Ano 2023 na Gastronomia” pela Revista de Vinhos). No Brasil, o vinho foi lançado na cidade de São Paulo, no dia 11 de junho, em local igualmente suntuoso: o palacete na Avenida Higienópolis que na virada do século 19 era a residência de Dona Veridiana Prado, ícone da sociedade paulistana. A mansão hoje pertence ao Iate Clube de Santos. Um jantar de gala preparado pelo chef Marcelo Corrêa Bastos serviu de escort perfeito para a grandeza do momento, do evento e do Barca-Velha.


O alquimista
A grande inovação que surgiu com o primeiro Barca-Velha – e todos quantos se seguiram – foi o controle da fermentação das uvas, sobretudo no que diz respeito à temperatura. Sublinhe-se que, à data, não existiam mecanismos para controle de temperatura na fermentação ou estágio, sendo que, na adega do Vale Meão, foi implementada tecnologia originária de França, que permitia a remontagem por bomba em cubas, então em madeira. Quanto à temperatura… Bem, o transporte de gelo de Matosinhos para o Pocinho assegurava a fermentação alcoólica nos níveis desejados. Deve ter sido monumental vislumbrar a edificação dessa ‘geringonça’… João Nicolau de Almeida recorda os tempos em que o pai, qual alquimista, trazia para a mesa duas garrafas do mesmo vinho, a temperaturas diferentes, para obter aquela que considerava ideal: “Até fazia fumo!”, lembra.

Rótulo de tapeçariaA intervenção do criador do Barca-Velha não ficou pelo vinho em si. Todos os pormenores, incluindo o desenho do rótulo, foram de sua iniciativa. Inspirado numa tapeçaria de Cluny ainda hoje patente nas paredes da Ferreira e cujos motivos estão relacionados com a vivência do vinho, Fernando Nicolau de Almeida pediu ao amigo, o artista José Menezes de Almeida, o desenho do rótulo que o próprio Nicolau de Almeida viria a colorir. Já o nome atribuído ao vinho surgiu de uma velha barca na qual se atravessava o rio.
" />Rótulo de tapeçaria
A intervenção do criador do Barca-Velha não ficou pelo vinho em si. Todos os pormenores, incluindo o desenho do rótulo, foram de sua iniciativa. Inspirado numa tapeçaria de Cluny ainda hoje patente nas paredes da Ferreira e cujos motivos estão relacionados com a vivência do vinho, Fernando Nicolau de Almeida pediu ao amigo, o artista José Menezes de Almeida, o desenho do rótulo que o próprio Nicolau de Almeida viria a colorir. Já o nome atribuído ao vinho surgiu de uma velha barca na qual se atravessava o rio.
Sogrape quer ser líder de Portugal no Brasil
O gigante português Sogrape Vinhos (igualmente com projetos na Espanha, Argentina, Chile e Nova Zelândia) é hoje o terceiro principal exportador de vinhos lusos para o Brasil, mas a ambição é ser o líder. “Temos a ambição de chegar brevemente a número 1”, enfatiza o presidente do grupo de matriz familiar, Fernando da Cunha Guedes, em declaração à Gula. Os laços entre a Sogrape e os brasileiros são históricos. Esfriaram durante alguns anos, mas a chama está reacendendo em força, sobretudo nos últimos quatro anos.
“Devo destacar que, em 1942, o Brasil foi o grande mercado de exportação de Mateus Rosé”, relembra a pretexto do vinho rosado mais conhecido do mundo, criado nesse ano. “Depois saltamos para o Reino Unido e os Estados Unidos, seguindo-se o mundo. Nos últimos quatro anos, o Mateus voltou a crescer substancialmente no Brasil e diria que se trata de um mercado estratégico para a
Sogrape”, observa.
A par do Mateus, a Sogrape apresenta números animadores com os vinhos da Casa Ferreirinha (especializada no Douro e no Porto, onde se inclui o Barca-Velha), a alentejana Herdade do Peso e o novíssimo Silk & Spice, que depois de conquistar os Estados Unidos e o Canadá está a ser alavancado no Brasil e, certamente, muito em breve noutros destinos mundiais.
“Temos muita fé e reconhecimento no mercado brasileiro”, promete Fernando da Cunha Guedes.






