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Minas, quem te conhece, não esquece jamais!

Os versos da canção imortalizada pela dupla Tonico e Tinoco dão o tom desta viagem através das muitas facetas deste majestoso estado brasileiro.

  • Texto: Alexandre Lalas e Carolina Daher
  • Fotografia: Ricardo Garrido
17 de Junho, 2026

A melhor forma de começar a contar a história da gastronomia mineira, talvez seja pelo queijo artesanal.

Milenar e presente nas mais diversas culturas, o queijo nasceu da necessidade de transformar um ingrediente extremamente perecível em algo duradouro. No Brasil, o produto veio pelas mãos dos portugueses, a partir do século XVI, na esteira do movimento de interiorização do país. E sendo a intensa criação de gado bovino, ocorrida no final do século XVII e início do século XVIII, a estratégia determinante para que os colonizadores conseguissem fixar raízes num lugar com escala continental, o leite não era problema.

Em Minas Gerais, as regiões com minério eram terra prometida para quem desejava enriquecer com a caça de ouro e pedras preciosas. Os povoados surgiam de um dia para o outro. E esse povo precisava de comer. A febre pelo enriquecimento rápido levou muitos aventureiros a morrerem de fome com as
mãos cheias de ouro. Assim como noutras regiões mineiras, a ordem era cavar em busca do que reluz e não do que alimenta.

Movidos pela necessidade

Podemos afirmar que a fome foi a força motriz do nascimento da culinária mineira, pontuada pelo uso de plantas e animais que cresciam à volta das casas de pau a pique (construção tradicional com estrutura de madeira e taipa). Uma culinária baseada na necessidade. O queijo logo se tornou um ícone da cozinha e na economia do estado. Relatos de viajantes estrangeiros mostram a importância sociocultural do queijo no quotidiano da população. Na Biblioteca Nacional de Portugal, há um inventário em que são listadas as compras duma família mineira entre julho de 1793 e outubro de 1796. Ali, o queijo aparece na liderança entre os produtos vendidos em 13 dos 40 meses que compõem o rol de mantimentos. A cada compra, dezenas de unidades, o que nos faz acreditar na prática de se consumir queijos maturados.

Em Minas, mato sempre foi comida. Não há ninguém nascido por essas bandas que não conheça taioba (uma hortaliça), ora-pro-nóbis (trepadeira) e maria-gondó (planta que pode chegar aos dois metros de altura cujas folhas são usadas como hortaliça).

Com os povos originários, os estrangeiros aprenderam a colher frutas até então desconhecidas dos paladares europeus e africanos como cagaita, pequi e jabuticaba. Da mandioca, faziam tudo. Do milho, também.

Dos povos de África que desembarcaram na região, a maioria vinha do Congo, Angola e Costa da Mina. A escolha por estas etnias vinham do fato de serem nações que já dominavam bem as técnicas de exploração de minério. A maioria dos escravos ia para os leitos dos rios. Mas alguns acabavam nas cozinhas, para servirem a “casa grande”. E usavam os conhecimentos culinários que tinham, na preparação dos pratos e ingredientes locais.

 

Daí, por exemplo, vem o angu, que em Minas nas Gerais, é até hoje preparado sem sal, ingrediente valiosíssimo na época e, por isso mesmo, restrito à mesa dos mais ricos. E foram, também, os africanos que trouxeram o uso do quiabo e das pimentas-de-cheiro.

Já os portugueses vieram, a princípio, explorar. A ideia era enriquecer e logo voltar para casa. Mas com a descoberta de mais minas, viu-se também a necessidade de um forte aparato fiscalizador. Foi então que a estadia se alongou. E os que ficavam, mandavam trazer a família da Europa. Com a chegada das “sinhás”, os hábitos alimentares ganham novas cores e formatos. Junto aos baús de couro, traziam cadernos de receitas. Pratos que precisaram de se adaptar à realidade dos trópicos. Os doces conventuais são então deixados de lado e entram as compotas com as frutas locais como mamão e goiaba nas sobremesas.

Claro que isso é uma breve e efémera apresentação sobre o berço da riquíssima cultura alimentar mineira. Minas é terra onde o simples se faz sofisticado. Onde o jiló (fruto do jiloeiro) é exaltado como ingrediente nobre e a canjiquinha e a costelinha de porco andam juntas. Um lugar em que o velho fogão a lenha ganha o ponto mais nobre da cozinha. E onde é um privilégio sentar-se à mesa para bebericar um café enquanto a prosa é interrompida apenas por pequenas dentadas num pão de queijo feito com queijo de verdade.

O estado vive um momento único na gastronomia. É tempo de autoestima alta, que se assume sem a modéstia típica do mineiro. Sim, é de Minas Gerais que sai uma das mais emblemáticas culinárias brasileiras. O frango com quiabo preparado na panela de pedra, por exemplo, é motivo de orgulho. Porque além da comida, cada prato carrega a história de um povo.

Belo
Horizonte

Comida tradicional ou contemporânea? A verdade é que a cozinha mineira se reconhece em todos os estilos. E para ilustrar, traçamos os perfis de cinco emblemáticos cozinheiros de Minas Gerais.

Flávio Trombino
Xapuri
O guardião da cozinha tradicional

É um entra e sai constante nas portas do Xapuri. Ao domingo, é fácil passarem por ali mais de mil pessoas atrás dos clássicos da casa, como o talharim com frango preguento, que, como o nome indica, é rico em colágeno e deixa a boca deliciosamente pegajosa.

Tudo no Xapuri tem história. O restaurante é um quadro bonito de uma vida na roça em plena cidade grande. Por isso, é bom ir sem compromisso com o relógio. Comandado por Flávio Trombino, que herdou o talento e o carisma da mãe, Dona Nelsa, a casa foi fundada em 1987 e até hoje mantém as tradições de Minas nos detalhes.

O fogão a lenha sempre aceso, o tempo certo de cozedura, as panelas de pedra, a colher de pau e aquele perfume que toma conta de todos os cantinhos enquanto o alho e a cebola douram devagar. Os ingredientes são frescos e escolhidos a dedo pelo Chef. Às terças e sextas, a partir das cinco da manhã, é fácil encontrá-lo a caminhar pelo Ceasa.

Até o angu merece prosa. Descendente de italianos, dona Nelsa insistia em fugir da receita mineira tradicional, que leva apenas fubá e água. Ela preferia um angu temperado com sal, leite e manteiga. Dona Nelsa morreu em 2023, aos 84 anos, mas suas marcas estão enraizadas no restaurante para sempre. “O nosso angu será sempre como o preparado por ela”, diz Flávio.

É para comer apreciando, acompanhado de uma boa cachaça, jogar conversa fora e viver Minas na essência. E não se esqueça de passar pelo buffet de sobremesas com mais de 30 opções de receitas mineiras capazes de deixar qualquer dia mais doce.

Caio Soter
Pacato e Pirex
Um olhar novo sobre antigos ingredientes

Aos 19 anos, quando participava num intercâmbio nos Estados Unidos, Caio Soter arranjou trabalho numa pastelaria de Montana. Ao voltar para o Brasil, continuou com a vida de estudante. Formou-se, colocou a gravata e especializou-se em Direito Tributário. Mal sabia o rapaz que a versão escritório não duraria muito. Fã de gastronomia, em 2017 fundou o Umami Dry Aged Steaks, a primeira empresa de maturação a seco da capital. Logo passou a fornecer para restaurantes e tornou-se amigo de chefs. Quando se apercebeu, já tinha trocado o fato pela jaleca. Passou por cozinhas importantes como Fred Trindade e Felipe Rameh até começar a trilhar a sua própria história. Hoje, é dono do Pacato e do Bar Pirex, duas moradas badaladas em Belo Horizonte.

E se tem uma coisa que enche de orgulho o Chef Caio é ter sido o pioneiro em fundar um restaurante de alta gastronomia totalmente dedicado à comida mineira. No Pacato não entram produtos que não venham de Minas Gerais. Mesmo com um menu arrojado, por lá não passam ingredientes aclamados pelo público como camarão, polvo, ostras e vieiras. Tudo vem dos quintais, dos rios e das mãos de pequenos produtores. Jiló, milho, ora-pro-nóbis são sempre bem-vindos nas suas panelas. “Existem estabelecimentos tradicionais de comida mineira que são maravilhosos, mas nós fomos os primeiros a trazer a nossa culinária para o modelo fine dining”, diz Caio. E a mineirice não se restringe apenas aos pratos. Música, decoração, artesanato e até as cerâmicas usadas são de artistas do estado.

Tiradentes

A região tem vindo a afirmar-se ano após ano como um dos principais destinos gastronómicos não apenas de Minas Gerais, mas também do Brasil. Estivemos em três dos principais restaurantes da cidade. Conheça o Mia, o Tragaluz e o Tempero da Ângela.

Felipe Rameh
Tragaluz
Uma casa cheia de histórias

“Aqui se aplaca a fome de pão, e se aguça a da beleza”. A frase é de Frei Beto, e cobria uma das mesas do enorme salão deste casarão de quase três séculos, morada para este que é um dos mais emblemáticos restaurantes de Tiradentes.

O Tragaluz começou como loja e café. Mas não demorou a encontrar o caminho que o fez internacionalmente famoso: o da boa cozinha.

Pedro e Patrícia Navarro cuidam com esmero e respeito do histórico imóvel. E têm a consciência de que apenas uma cozinha e um serviço de alto nível poderiam estar à altura da casa, tanto pela beleza da arquitetura, como da rica história que carrega. E falando em história, é necessário mencionar Zenilca Navarro, a Tia Zé de Pedro e Patrícia, quem abriu o Tragaluz bem no limiar do novo milénio.

A herança da fundadora está muito bem preservada pelos sobrinhos, que assumiram a casa em 2015.

A cozinha, o coração de tudo, esteve sempre em boas mãos. Nomes respeitados como Fred Trindade já passaram por ali. Há cerca de três anos é Felipe  Rameh quem assina o menu como chef consultor do restaurante. E pode dizer-se que o talentoso cozinheiro é um antigo amigo da casa.

“A minha relação com o Tragaluz vem desde a época da Zenilca. Eu frequentava o restaurante. E naquela altura, o meu trabalho em Belo Horizonte estava em evidência e coisa e tal.

 

 

Até que um dia ela fez um convite inusitado: vir um fim de semana e cozinhar para a equipa dela. Eu adorei o desafio e vim. Ela pediu para eu fazer um arroz com frutos do mar e um leitão à pururuca. Eu fiz e foi uma tarde deliciosa. Foi tão bom que ficámos amigos e por algum tempo eu dei uma consultoria informal à Zenilca, opinando quando precisava de mudar a carta, ou sugerindo alguém quando ela precisava de mão-de-obra na cozinha”, conta Felipe.

Comer no Tragaluz é uma experiência. Em primeiro lugar, é uma casa, com comida farta e conectada às suas origens e ao local onde está inserida. O menu traz as principais referências da comida mineira de raiz: tem frango com quiabo, picadinho, porco, e muito mais elementos típicos da região. Mas tudo com um acabamento de primeira  linha e com temperos na medida certa.

Felipe Rameh passa um fim de semana por mês  a fazer ajustes finos e a colaborar na criação de novos pratos. O dia-a-dia é garantido pela Chef Jéssica
Mota. Destaque ainda para o serviço da casa e para a carta de vinhos. Os maîtres-sommeliers António Eduardo e Claudinei Ramos brilham no comando destes elementos.

Mas a melhor definição do restaurante talvez venha mesmo de Felipe Rameh. “Eu sempre considerei o Tragaluz como um lugar que pratica a essência da restauração. Aqui é uma casa para você vir depois de passar um dia nas cachoeiras, ou a fazer trilhas pela Serra, ou a caminhar pela cidade, e recompor as energias. Um lugar onde você alimenta o corpo e a alma”, define Rameh.

Rafael Pires
Mia
Chef desde pequenino

Não é exagero afirmar que Rafael Pires se interessa pelas coisas da cozinha desde a infância. Afinal, o menino mal tinha dez anos quando o pai criou nada menos que o Festival de Gastronomia de Tiradentes. Portanto, o convívio com
chefs, panelas e fogões fez-se presente na rotina do jovem rebento desde que se começou a entender como gente.

“Tenho até fotografias no meio dos chefs, tiradas na altura do primeiro
festival gastronómico da cidade. Eu a querer cozinhar com eles, a atrever-me a fazer pão com o Olivier Anquier”, diverte-se Rafael.

Não é de estranhar que ainda aos 17 anos, quando a maioria dos jovens sofre com a perspetiva de escolher uma profissão que irá abraçar para o resto dos seus dias, Rafa tenha decidido parar de brincar de chef e matricular-se num curso técnico-profissional no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). A carreira escolhida não poderia ser outra: cozinheiro.

A partir daí, foi um progresso sem fim que foi moldando a carreira do aprendiz de chef. Para alargar o conhecimento adquirido no curso do Senac, decidiu acumular experiências criando asas e levantando voo. Foi trabalhar com o craque Ivo Farias no Vecchio Sogno, histórico restaurante de Belo Horizonte.

 

 

Também na capital mineira, passou um tempo pelo Fasano. Era hora de voar mais alto. E Rafael resolveu desbravar o estrangeiro. Mochila às costas, andou por diversos países e continentes.

Até ao dia em que o destino falou mais alto e a oportunidade lhe bateu à porta. O chef estava a trabalhar em Abu Dhabi e veio de férias ao Brasil. Um amigo queria abrir um restaurante e chamou-o para entrar como sócio na empreitada. Rafa aceitou. Mas deu-se conta, no dia da abertura da casa, que talvez não estivesse tão pronto assim para assumir tal responsabilidade. Foi desta forma, meio a ferros, que o ainda jovem cozinheiro passou a chef de verdade.

Alguns anos depois, um já confiante e bem mais experiente Rafael decidiu
que tinha chegado a hora de se lançar a solo. Desfez a sociedade e abriu a sua própria casa. Nascia ali o Mia. E quem explica o conceito da casa é o próprio criador. Com a palavra, Rafael Pires.

“O Mia não tem lá muitas regras. Acho que trago um pouco da experiência de
cada lugar onde trabalhei, seja na Itália, no Canadá, ou com comida indiana, árabe, francesa, atiro tudo para dentro dum caldeirão e misturo com toda a tradição e riqueza da nossa culinária mineira e seus ingredientes locais. É o restaurante do Rafael”, define.

Dona Ângela
Tempero da Ângela
Mesa farta e gente feliz

Pense num lugar onde a pessoa realmente come muito bem. E quando falo muito bem, é MESMO MUITO BEM.

E não apenas porque a comida é deliciosamente espetacular. Mas também pelo facto de ser variada, farta e quase irresistível. Há alguns lugares assim no mundo, no Brasil e, principalmente, em Minas Gerais. Um deles é o Tempero da Ângela, que há anos faz a alegria do povo que visita a pequena, artística e simpática cidade de Bichinho, perto de Tiradentes.

Modesta como poucos, Ângela em pessoa não esperava que os seus temperos fossem atrair tanta gente. “Foi uma surpresa para mim [o sucesso do restaurante]. Começamos pequenininhos aqui, e eu pensava que seria só uma coisa para ajudar no sustento da família, para pagar a escola das crianças”, lembra a cozinheira de mão cheia, daquelas que fazem jus à fama da expressão.

O pequeno negócio cresceu e o restaurante tornou-se numa grande empresa. Ângela e os seus temperos são bem conhecidos em todo o Brasil e tirar um tempo para almoçar por lá é programa quase obrigatório para quem visita Tiradentes e gosta de comer bem.

“Vem gente até do exterior”, espanta-se a Chef, que, apesar de vários convites para ir cozinhar fora do país, nunca aceitou nenhum. “Tenho medo de avião”, explica.

Autodidata, Ângela aprendeu o ofício com a vida. “Aqui no interior, a gente começa a cozinhar muito cedo, ainda mais no meu tempo. Eu ainda era bem menina e já ia para o fogão para ajudar a minha mãe, até porque eu era a primeira filha de uma família de seis irmãos”, lembra.

 

 

A memória de correr atrás dos frangos aos domingos para, literalmente, ir caçar o almoço marejam os olhos da Chef, que se lembra de fazer tudo em casa. Inclusive matar o porco, salgar a carne e tudo o mais que as circunstâncias na época exigiam.

A vida ensinou bem o ofício de  cozinhar à Ângela. A comida do restaurante onde ela pica o ponto diariamente é tão deliciosa quanto simples.

O grande problema do Tempero da Ângela é escolher o que comer. A casa funciona em sistema de self-service. Mas em vez de uma mesa com travessas e luz fria, a comida fica em panelas sobre o fogão a lenha. Como se estivesse em casa, o cliente vai até à cozinha escolhe entre a dúzia de pratos preparados ali no dia e na hora. Tem de tudo, carnes de boi e de porco, peixes, aves, legumes, ensopados, feijões… sem falar no buffet de saladas, cujas verduras são colhidas ali mesmo na horta que fica nas traseiras do restaurante. Dá vontade de pedir uma cachacinha para ajudar na digestão e comer tudo. E repetir. Mas atenção: convém guardar lugar para as sobremesas, todas caseiras, que são outro espetáculo.

Resumindo: é melhor nem tomar pequeno-almoço no dia em que o leitor for ao Tempero da Ângela. É bom chegar lá com fome e disposição para comer muito e de tudo. Vale demais a pena.

Para falar a verdade, só de escrever estas poucas linhas, este jornalista encheu a boca de água. Acho que terei que voltar logo a Bichinho para mais um banquete neste majestoso lugar…

Coisas de Minas

Para além de todos os elementos já explorados nesta extensa reportagem, Minas ainda guarda um sem fim de encantos capazes de surpreender, admirar e apaixonar moradores e visitantes.

As grutas de Ibitipoca, o misticismo de São Thomé das Letras, a pujança de Uberlândia, as águas de Caxambu e São Lourenço, a imponência de Ouro Preto, as obras de Aleijadinho em Congonhas, a Oficina de Agosto em Bichinho. O mar mineiro do Capitólio, os casarões de Diamantina, as cachoeiras de Carrancas, as casas coloridas de Catas Altas, a paz de Gonçalves, o frio de Monte Verde.

 

 

As termas de Poços de Caldas e de Araxá, a Igreja Matriz de Santo António em Santa Bárbara, o Parque Nacional da Serra do Cipó, conduzir pela Estrada Real, comer um torresmo em Juiz de Fora, ou um pão de queijo em Paracatu…  É tanta coisa para fazer num único estado que seria impossível condensar tudo num trabalho apenas. Pudera. Minas Gerais é maior do que a França! E já que não é possível escrever sobre tudo e todos, decidimos, para encerrar com chave de ouro esta reportagem, eleger três outros tesouros mineiros que valem uma olhadela. Bom proveito!

Atelier de bordados Clareart

Bichinho é uma charmosa vila que faz parte do município de Prados, muito próxima de Tiradentes. Ali ficam destinos já icónicos como o restaurante Tempero da Ângela, a Casa Torta e o centro de arte Oficina de Agosto. Há ainda inúmeros pequenos ateliers de artesãos das mais variadas habilidades. Um destes tesouros da vila é o Atelier de Bordados Clareart, onde o jovem Moisés Jordano expõe e vende as delicadas e elegantes peças que produz.

Tudo começou com a mãe de Moisés. Dona Etelvina era bordadeira, trabalho que deixava o filho encantado. A criança foi crescendo e começou a desenhar.
Fazia a coisa tão bem, que logo a mãe e as tias começaram a bordar os desenhos do então adolescente. Moisés continuava a estudar (chegou a formar-se em história e pedagogia), mas o destino já estava traçado. O caminho natural das coisas estava tão pavimentado que foi questão de tempo para o talentoso Moisés começasse ele mesmo a também dominar a técnica do bordado. Mais do que isso, desenvolveu um jeito próprio de bordar.

Apaixonado por tudo o que é feito a mão, Moisés decidiu largar os empregos em que trabalhava quando percebeu que poderia viver das habilidades manuais que possuía. Resolveu viver dos bordados que fazia. O impulso decisivo veio quando o jovem ganhou o prémio máximo num concorrido concurso nacional do Senac. Foi nesta altura que decidiu construir a casa em Bichinho onde nos recebeu. E o trabalho que fazia junto à mãe e às tias, ganhou ares de empreendimento a sério. Nascia o Atelier de Bordados Clareart.

 

“Quando as pessoas entram aqui no atelier, meu primeiro desejo é que elas se sintam em casa. Por este motivo, eu montei uma loja que mais parece justamente… uma casa!”, apresenta Moisés.

De facto, o atelier em nada lembra uma loja convencional. Não há prateleiras cheias de produtos ou coisas do tipo. Mas sim almofadas dispostas de uma forma orgânica, toalhas, objetos de decoração, quadros, obras de arte, tudo exposto como se fosse uma confortável casa decorada com muito bom gosto e elegância, e cujos ambientes como salas de estar e jantar, quartos, escritório, todos estivessem de alguma forma conectados. “Eu quis fazer assim até para facilitar às pessoas a melhor compreensão de como tal produto pode ser usado na casa delas”, explica o artesão.

Além de toda a beleza ímpar dos objetos que irá encontrar no Atelier, o visitante deparar-se-á com obras de arte carregadas de sentimento. Moisés acredita que o bordado feito à mão traz, costurado na alma, o estado de espírito de quem o faz. “Eu ou as meninas podemos estar tristes ou alegres, mas estaremos lá, desenhando, bordando, levando ao nosso trabalho um pouco daquilo que estamos sentindo na hora. O bordado não é apenas um produto. É um pouco do que somos cada um de nós. E acho que a casa acaba por evidenciar isso. Não se trata de um produto banal. E é importante que a pessoa que escolher e levar algo aqui da casa acabe por também sentir alguma coisa ao escolher o produto”, completa Moisés.

O arrebatador Atelier de Bordados Clareart fica na Rua São Bento, 617, em Bichinho. O Instagram da casa é @bordadosclareart_oficial.

Vitoriano Doces

Assim como o café, o pão de queijo e o frango com quiabo, o doce de leite é uma instituição de Minas Gerais. Roça o sagrado. Quer provocar um mineiro raiz? Diga-lhe que doce de leite bom é o que vem da Argentina ou do Uruguai. Ganha um inimigo mortal. Tradição em doçaria é que não falta no estado. E no meio de tanto produtor bom, há uma empresa familiar que tem ganhado importante destaque ao longo dos últimos anos: a Vitoriano Doces, cuja fábrica fica em Bichinho.

A receita do doce de leite brasileiro artesanal clássico é, basicamente, leite e açúcar. O que varia é a qualidade de um e a quantidade do outro ingrediente usados na produção do doce. O trabalho começa nas primeiras horas da manhã, com a recolha do leite. Quando chega o produto, o doceiro distribui entre os tachos e aí a magia começa. Fogão a lenha, lume bem baixinho, açúcar, tempo, olho e braço para mexer. No fim da tarde, está pronto. Falando assim, parece fácil. Mas, tente fazer em casa…

Na Vitoriano, Jessé Duarte é a figura por trás da empresa. Fazer o doce de leite é uma tradição familiar, desde a bisavó. A mãe, inclusive, trabalha na cozinha da Vitoriano. Mas quem transformou o saber fazer em negócio foi Jessé. Antes de se tornar doceiro, ele exercitava a inteligência noutro ofício: a literatura.

Mas viver de cultura no Brasil não é algo fácil. E se a escrita não pagava as contas como Jessé gostaria, a gastronomia apareceu como uma solução viável.

Jessé sempre gostou de cozinhar. Como toda a família, fazia doce de leite. E desenvolveu a sua própria receita. Aos poucos, foi diminuindo a quantidade de açúcar usada para fazer o doce, até chegar à percentagem atual, de 13%. Bem baixa para os padrões de produção do doce. A certeza de que estava no caminho certo veio quando amigos e familiares começaram a pedir-lhe o doce. “Comecei a perceber que, ao contrário da literatura, fazer doce de leite poderia transformar-se numa fonte de renda mais segura para a minha família”, lembra Jessé.

 

Aí foi a hora de colocar o pé na estrada. Ou, no caso do ex-dramaturgo, as rodas. Jessé fazia o doce em casa e começou a oferecer o produto andando de bicicletas pelas redondezas. Nos fins de semana, estacionava a bike no centro de Bichinho e vendia os doces. Em menos de uma hora, esgotava o stock. A partir daí, foi traçar o rumo e seguir em frente.

Jessé é o tipo de sujeito que não se curva a qualquer dificuldade. Se aparece um problema, ele procura a solução. “Isso faz parte da alma nacional. O brasileiro tem que se reinventar o tempo todo”, observa.

E foi justamente uma invenção de Jessé e de um amigo que resultou no pulo do gato que possibilitou a Vitoriano extrapolar os limites para os quais parecia ter sido criada. “Com o crescimento das nossas vendas, houve um momento em que batemos no teto. Da forma que fazíamos, não havia mais espaço para crescer. Eu precisava dinamizar a produção, sem perder o caráter artesanal e tão pouco deixar de usar fogão a lenha. Bichinho é uma cidade de artesãos. E um amigo artista, que trabalhava com ferro, ao ver como se faz o doce, disse-me que ia desenhar uma espécie de pás, que serviriam como um misturador. Sentamo-nos para beber uma cerveja e conversar sobre o assunto, fiz um rascunho do que poderia ser a tal geringonça.

Uma semana depois, ele surge com esse misturador. Com essa simples invenção, conseguimos passar de um tacho por dia, para sete tachos por dia. E desde então, usamo-lo na produção do doce de leite”, conta Jessé.

Esta quantidade de doce vinda dos sete tachos rende, em média, 260 potes por dia. Para atender o Brasil inteiro. Parte da produção fica na loja da fábrica, em Bichinho. Outra parte vai para revendedores, outra para a loja online. O que sobra, vai para a grande distribuição. E existe uma longa fila de espera para comprar os doces de leite da Vitoriano. Mérito deste dramaturgo que virou empreendedor, e encontrou nas tradições familiares o caminho para redesenhar a sua própria estrada.

A loja de fábrica da Vitoriano fica em Bichinho, na Rua Israel Pinheiro Filho, 362. O Instagram da empresa é @vitorianodoces.

Inhotim

O maior museu a céu aberto do mundo.

Um dos maiores acervos de arte contemporânea do Brasil. Um rico Jardim Botânico com 140 hectares de uma natureza exuberante, com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes. Tudo isso – e muito mais – define Inhotim, que começou como um sonho do empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e que ganhou vida em 2006.

Tudo ali é impressionante, superlativo.

Se o assunto é arte, o acervo conta com1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, e são exibidas em galerias ou ao ar livre, misturadas com a incrível e inspiradora paisagem. Além do acervo permanente, há diversas exposições temporárias compondo a programação do museu.

São 20 galerias permanentes, e quatro dedicadas a exposições temporárias. Do acervo permanente fazem parte obras de artistas como Tunga, Cildo Meireles, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica & Neville d’Almeida, Adriana Varejão, Doris Salcedo, Victor Grippo, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, Vales Soares, Doug Aitken, Marilá Dardot, Lygia Pape, Carlos Garaicoa, Carroll Dunham, Cristina Iglesias, William Kentridge, Claudia Andujar e Yayoi Kusama.

Os jardins são uma experiência à parte. Caminhar pela extensa área é um exercício constante de contemplação.

 

Além dos 140 hectares de área, há uma extensão de 250 hectares de Reserva Particular de Património Natural Inhotim (RPPN). Inhotim está inserido numa zona de encontro entre a Mata Atlântica e o Cerrado. Ambos biomas ricos em biodiversidade e, desgraçadamente, perigosamente ameaçados graças à burrice humana. Passeando pelo espaço, encontramos espécies nativas brasileiras e exóticas de várias partes do mundo. São cerca de 4.300 espécies de plantas vasculares, espalhadas por nove Jardins Temáticos e abertas a visitantes. Ainda na parte botânica, o instituto faz um impressionante e valioso trabalho de pesquisa e conservação.

A educação é outro pilar importante para entender todo o universo Inhotim.

Projetos de formação, como o Espaço Ciência, a Escola de Música, o programa Jovens Agentes Ambientais, o laboratório, o coro, a orquestra… São muitas as ações e iniciativas que visam integrar a comunidade no espaço. Há eventos, espetáculos e mais um grande leque de atrações que fazem de Inhotim um lugar obrigatório a qualquer visitante de Minas Gerais.

O Instituto Inhotim fica em Brumadinho, na Rua B, 20. O parque abre de quarta a domingo, e também aos feriados. Horários, preços, programação e mais detalhes podem ser consultados no site www.inhotim.org.br. O Instagram é @inhotim.

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