

Os grandes Vinhos Oceânicos
José Peñin
A influência das correntes marítimas frias que banham os territórios é determinante. De tal forma que, áreas que aparentemente deveriam oferecer vinhos hiper-maduros, com alto teor alcoólico devido ao sol e baixa pluviosidade, transformam-se em vinhos de grande expressão e personalidade.
- Texto: José Peñin

As Canárias, na latitude do Saara, o Chile, na latitude sul equivalente a Marrocos, ou algumas áreas semidesérticas australianas, são exemplos claros de mares frios. Os vinhos oceânicos são aqueles que, independentemente da sua maior ou menor proximidade à costa, são influenciados pelas correntes marítimas. Qualquer um pode deduzir que estamos a falar de climatologia agrícola e, portanto, do que isso implica para a videira. O mais curioso é que, no hemisfério sul, com exceção da Nova Zelândia, todas as áreas produtoras de vinho de qualidade são possíveis graças às correntes frias. Existem apenas duas correntes oceânicas temperadas que produzem grandes vinhos: Nova Zelândia e França.
A CORRENTE DO GOLFO: O MILAGRE DE BORDEAUX
A corrente marinha, neste caso temperada, mais extensa e espetacular é a Corrente do Golfo, que começa nas Caraíbas e atinge a costa norte da Noruega. Uma corrente que permite um clima anormalmente benigno na Europa que cobre até o território alemão. Se assim não fosse, a Europa teria uma temperatura semelhante à escandinava, ou seja, a mesma que tem a latitude idêntica ao hemisfério sul. O incrível equilíbrio entre a latitude, a umidade do ar, a precipitação e, sobretudo, as temperaturas diurnas que não ultrapassam os 30º e com noites amenas, produz o milagre de Bordeaux de uvas capazes de amadurecer lentamente, vinhas perfeitamente hidratadas, a que acresce uma sabedoria humana de 200 anos. Mais ao norte, no Loire, a maturação das uvas tintas é desigual e chove mais.
A CORRENTE DA CALIFÓRNIA: O ORGULHO DE NAPA VALLEY
Todos nós temos a imagem da cidade de São Francisco escondida atrás de uma espessa neblina. San Francisco tem uma insolação mediterrânea, mas com um ar fresco das águas anormalmente frias do oceano. Por um lado, a Califórnia é protegida por uma imensa barreira montanhosa, a Sierra Nevada, que atua como isolante do calor proveniente do deserto de Nevada. O milagre que ocorre nessa área é que, dentro da concepção mediterrânea do clima, há uma corrente de água gelada vinda do Alasca que atinge a Baía de São Francisco quase de frente. A temperatura fria da água e o calor ambiente provocam a geração de um denso nevoeiro, um meteoro que mitiga o denso calor mediterrânico e gera uma umidade que hidrata perfeitamente as vinhas de Napa Valley, Sonoma Valley e a zona de Carneros, além de um excelente contraste entre dia e noite capaz de manter, principalmente em Carneros e geralmente pela manhã, uma capa nublada que regula as horas de sol. Assim que nos afastamos da costa, a temperatura sobe com força inusitada, lembrando-nos que o deserto está próximo.
A CORRENTE CHILENA DE HUMBOLT: OS MELHORES CABERNETS DO MUNDO
Tal como na Califórnia, no Chile existe outra corrente marítima que atua de forma benéfica sobre as vinhas. Neste caso, trata-se de uma corrente de água fria vinda do sudoeste antártico, a corrente de Humboldt. Esta corrente gera uma temperatura média da água incomumente baixa para regiões de latitudes tropicais e subtropicais. Uma zona, que devido à sua latitude meridional deveria ter vinhas com características semelhantes às de Marrocos, usufrui, devido a este fenômeno, de vinhos de excelente maturidade e expressão varietal. A grande insolação diurna, contrabalançada pelo frescor desta corrente, dá lugar a noites frescas, que se somam às baixas temperaturas dos Andes devido à descida em direção ao vale das correntes frias das montanhas, gerando um maravilhoso equilíbrio entre a maturidade, a acidez e teor alcoólico da uva, devido à grande insolação de um território com pouca pluviosidade. Os vinhos brancos Sauvignon Blanc de San Antonio e Casablanca, devido à sua proximidade com o mar, são frescos, leves e de excelente acidez. Os tintos do Maule, com leve influência oceânica, são mais “europeus” do que os do Vale Central, que são mais quentes.
A CORRENTE DE BENGUELA: A BELEZA VITÍCOLA DA ÁFRICA DO SUL
A corrente fria de Benguela, vinda diretamente da Antártida, gera um clima sem chuvas no litoral oeste da África do Sul, beneficiando a região de Stellenboch, a poucos quilômetros da Cidade do Cabo. A quantidade perfeita de sol e a temperatura moderada devido à proximidade com o mar e chuvas mais do que suficientes transformaram estas vinhas em jardins espectaculares e os vinhos em alguns dos mais reconhecidos do planeta. Este milagre da natureza traz-nos imagens tão surpreendentes como a que envolve ver grupos de pinguins a banhar-se numa costa que se assemelha ao litoral de Almeria. Por outro lado, a influência úmida do leste, com alta pluviosidade, influencia a temporada de inverno e, portanto, o clima é classificado como mediterrâneo. Uma zona localizada na equivalência de Cádiz. As variedades que melhor se adaptam a esta situação climática são Chenin Blanc, Cabernet Sauvignon, Merlot e uma Syrah menos concentrada que a australiana, variedades que aceitam com otimismo a intensidade do sol sem perder nada de frescor.
As possibilidades de produzir grandes vinhos não dependem da geografia, mas da capacidade humana. A natureza é perfeita para esta tarefa.
A CORRENTE ANTÁRTICA AUSTRALIANA: A PROFUNDA SHIRAZ DE BAROSSA
A Austrália também tem esse fenômeno peculiar com a vinha. É a mesma massa de água fria que invade o Chile e a África do Sul, uma corrente que, por sua vez, gera três “afluentes” de águas frias, as quais deixam a sua influência na costa oeste e sul da Austrália. Isto permite, com uma boa insolação tipicamente mediterrânea e noites frescas e úmidas, produzir vinhos com sabores maduros mas excelentes níveis de acidez. Sem esta influência climática, os vinhos de Adelaide Hills, Barossa Valley e das zonas mais ou menos próximas do mar, seguindo a direção sul do litoral de Coonawarra até Melbourne, seriam mais alcoólicos e vulgares, pois não se deve esquecer que está situada numa latitude no hemisfério sul equivalente à Andaluzia. Quando o mar está mais quente, temos que nos voltar na direção do litoral sudeste em direção a Camberra e Sydney e encontramos uma pluviometria subtropical do nordeste e, portanto, vinhos muito menos relevantes.

A CORRENTE AUSTRALIANA DO NORDESTE: O ELEGANTE SAUVIGNON BLANC DA NOVA ZELÂNDIA
Esta corrente quente que colide com a costa leste da Austrália e que gira para o nordeste da Nova Zelândia produz elevada pluviosidade na ilha norte, onde os vinhos são menos apreciáveis. Este fenômeno na ilha sul, devido à sua latitude mais fria, gera um clima semelhante ao da Europa (equivalente à latitude de Bordeaux), mas com um perfil ligeiramente mediterrânico, uma vez que as vinhas desta ilha meridional não recebem mais de 400 litros por ano devido à barreira dos Alpes neozelandeses. As temperaturas oceânicas com invernos um pouco frios e verões relativamente amenos permitem o cultivo de variedades de ciclo curto, como Pinot Noir e Sauvignon Blanc, graças a maturações mais lentas.
OS ALÍSEOS ATLÂNTICOS: VINHOS FRESCOS EM FRENTE AO DESERTO
A corrente fria do nordeste das Canárias e da Madeira permite obter vinhos mais semelhantes aos do norte de Portugal, Galiza e oeste de França, a apenas 200 quilômetros da costa sul de Marrocos. Esta corrente fria e úmida condensa-se em nuvens ao colidir com a orografia quente e montanhosa desses dois arquipélagos vulcânicos. Os vinhos não ultrapassam os 12,5 graus de álcool desde que sejam provenientes das zonas do norte da Madeira e Tenerife, enquanto os do leste desta ilha, do Vale do Güimar e Abona, são muito mais quentes, compensados pelas diferentes altitudes destas duas zonas. As possibilidades de produzir grandes vinhos não dependem da geografia, mas da capacidade humana. A natureza é perfeita para esta tarefa.




