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Opinião

Por que beber os clássicos?

Luiz Horta

Um assunto que vem me rodopiando na cabeça há algum tempo: cada dia mais pessoas não entendem (e não gostam) dos vinhos antigos, ou daqueles feitos no que se chama de old school. Os clássicos, para resumir numa palavra. Não resisti e peguei emprestado o título do livro de Italo Calvino para falar das minhas aflições. Calvino, autor italiano mais conhecido por Cidades Invisíveis, discute o motivo para não deixarmos de ler os livros clássicos. E duas de suas razões eu aproveitei: eles nunca terminam de dizer o que têm a dizer. E, em cada releitura, há uma descoberta, como se fosse a primeira vez.

  • Texto: Luiz Horta
02 de Julho, 2026
Por que beber os clássicos?

Vejo gente torcendo o nariz para os grandes vinhos, que são complexos, exigem atenção e têm aromas e sabores muito peculiares. Uma vez ouvi uma pessoa, à mesa em que eu estava, chamar um Tondonia de “vinho múmia”. Se fosse entrar no climão, chamaria o gosto dela de “vinhos TikTok”, mas fiquemos no reino da polidez. Chega de raciocínio tortuoso.

Outro dia, abri um bordeaux antigo. Não era daqueles imortais, de château notável e preço impronunciável, mas um bom vinho, vindo de uma prateleira esquecida da adega, com a rolha ainda valente. Ao servir a primeira prova, o tempo fez uma curva. Não era apenas um vinho, era um gole do tempo.

Há algo de fundamental em beber os vinhos clássicos. Não por nostalgia ou fetichismo. Vivemos cercados de rótulos modernos, com nomes engraçadinhos e fermentações selvagens, que prometem reinventar a roda a cada safra. E no meio da maior crise do setor, com grandes casas – que antes vendiam tudo sem esforço – no pânico de seus produtos se acumulando. O horror foi saber que há vinhedos sendo arrancados na França. A forte reviravolta, que transformou o vinho de algo saudável em um problema, ou como já disseram e repito aqui: o álcool será o novo cigarro? No meio da tormenta, desprezar os clássicos é, para mim, piorar a situação.

Mas deixo que quem entende de negócios discuta o abalo no mundo do comércio de vinhos. Na minha opinião, é preciso voltar à raiz. Beber um bordeaux antigo é como reler Eça: você já sabe o ritmo, já conhece os atalhos, mas, a cada leitura, encontra uma nuance nova, uma ironia mais funda. Eu releio A Cidade e as Serras anualmente. E sempre tenho o mesmo prazer.

Quem só bebe vinhos frutados e frescos perde uma parte grande do que o vinho significa. Exagerando para explicar: um clássico ensina a paciência, por exemplo. Um vinho clássico não grita. Espera. Precisa de tempo para abrir, para contar sua história em camadas, como quem vai lembrando de um sonho aos poucos. Os tintos modernos, mesmo os bem-feitos, muitas vezes são rápidos, impacientes. Querem te conquistar no primeiro gole, como alguém que se apresenta já contando sua melhor história. O Bordeaux, o Musar, o Tondonia, o Buçaco, não. Eles são os sujeitos que falam baixo. E, se você escuta, revelam o mundo.

Também há uma lição de humildade. Os vinhos clássicos não foram feitos para impressionar. Foram feitos para durar, para evoluir. Carregam o clima de um ano, as escolhas de um enólogo que talvez já tenha morrido, a terra de um vinhedo que já mudou de dono. São monumentos líquidos. Em 2015, estive em Londres no leilão de um Porto de 1815, que comemorava a batalha de Waterloo (bicentenária naquele ano) e que foi batizado de Porto Wellington. Antes e depois do leilão (que aconteceu na Torre de Londres), foi servido um 1835, e a taça, aquela desenhada por Siza Vieira para Portos, ficou comigo. Meses depois, já em casa, no Brasil, a borra seca no fundo ainda exalava um aroma delicioso.

Comecei lúgubre e me animei, acho que me oxigenei enquanto escrevia. Ouço uma voz: “Ah, mas quem tem dinheiro para tais garrafas?”. Pois aqui começo a coluna que era o meu objetivo. Em janeiro recente, realizei um sonho antigo: estive nas Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina. Iduna Weinert, que está à frente da vinícola após a morte do pai, me mostrou duas dezenas de vinhos, muitos dos quais, ela tirava dos foudres, subindo e descendo uma escada, carregada como equilibrista em pernas de pau, pelo frio e escuridão da cave. Era verão lá fora, um domingo de sol; dentro, onde dormiam os vinhos, era um clima de outro mundo. Passamos horas ali. Caves de Weinert tem grande significado afetivo para mim. Quando comecei a levar o vinho a sério, o que eu podia pagar era o Carrascal ou, quando tinha um pouco mais de dinheiro, um Merlot ou um Caves de Weinert. Estava, sem saber, bebendo clássicos. E o pêndulo do gosto foi se afastando em direção aos modernos. Depois voltou aos vinhos assim, diferentes, cheios de camadas. E agora (o que estou lamentando neste texto meio confuso) vejo o gosto de novo se afastando deles.

Fiquei muitos anos sem beber um Weinert; a importação parecia ter cessado. Felizmente, os clássicos sempre têm seus cultores, e Deco Rossi, um apaixonado por vinhos, com sua pequena e ativa importadora, recoloca ao nosso alcance os Weinert. Comece pelo Carrascal: e não precisa agradecer.

Os vinhos Weinert são importados por WinetClub

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