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Egito, a grande maravilha do mundo antigo

A simples menção da palavra “Egito” já nos leva numa viagem mental por pirâmides e sarcófagos, atraídos por uma história com mais de 5.000 anos, com os seus tesouros e mistérios. Terra de faraós e das bíblicas águas do Nilo, inspirou arte, literatura e cinema como nenhuma outra. Não há sensação que se compare a pisar a areia do Vale dos Reis, sentir na pele o vento quente do deserto ou tocar pedras de templos ancestrais por onde andou Cleópatra.

  • Texto: Célia Lourenço
  • Fotografia: Maria João Gala
17 de Junho, 2026

Tudo pode começar com a Morte no Nilo, de Agatha Christie. O romance que se passa durante um cruzeiro, onde para além do óbvio crime à volta do qual toda a história gira, somos embalados na doce ondulação desse rio que desde tempos imemoriais é a água que dá vida. E, sim, vamos no histórico Steam Ship Sudan (SS Sudan), tal como Poirot. No Nilo, muitos são os barcos que andam de um lado para o outro, desde os tradicionais veleiros felucas, a pequenos barcos a remos com núbios ou egípcios locais que vendem tapetes e toalhas por entre os inúmeros turistas e viajantes. Mas o SS Sudan, ainda que movido a vapor, tem alma dahabiya, embarcação tradicional (representada em pinturas de túmulos de faraós), maior e mais luxuosa que a vulgar feluca, com o encanto de ser mais intimista e exclusiva que os enormes e massificados cruzeiros.

O SS Sudan foi construído pelo lendário Thomas Cook no início do século XX e conserva a patine desses tempos, com design clássico e mobiliário belle époque. Pode optar pelas suites Agatha Christie e Hercule Poirot, no deck superior. Uma luminosa e feminina. A segunda, sóbria e mais alinhada com a personalidade do famoso detetive, ambas com um charme que o vai transportar para a escrita incomparável da grande senhora dos romances de crime e mistério. Vai sentir-se numa verdadeira máquina do tempo, descobrindo as épocas gloriosas das escavações arqueológicas e o glamour dos primeiros turistas europeus no Egito. E como se estar a bordo não bastasse, este magnífico hotel ainda o leva a alguns dos mais extraordinários templos e a locais imperdíveis da mais profunda história do Egito, com viagens entre Assuão e Luxor (e vice-versa).

De Assuão a Luxor

Ao longo do cruzeiro, a velocidade a que vamos permite-nos ir acompanhando o quotidiano das margens do Nilo. São cerca de 200 quilómetros de pequenas cidades e aldeias rurais, de vegetação, campos agrícolas, crianças a brincar na água e pequenas embarcações que transportam pessoas e mercadorias. Assim se passam as horas de verdadeira bonomia, a bordo, para, depois, cada paragem ser um deslumbramento que nos arrebata o coração!

Templo de Philae, a pérola do Egito

Philae é o que muitos escolheriam se pudessem visitar apenas um dos inúmeros templos do Egito. Localizado na ilha de Agilkia, faz parte do património que, ameaçado pelas barragens de Assuão, foi desmontado pedra por pedra e reconstruído em locais mais altos, a salvo das águas do Nilo. O seu nome tem precisamente a ver com a ilha original, Philae, e prestava culto a Ísis.

O Templo de Philae, Património Mundial da UNESCO, é um conjunto de várias estruturas e templos, sendo a mais antiga do século IV a.C., enquanto a maior parte é da época ptolemaica, dos séculos III a I a.C..

Templos de Abu Simbel, colossal prova de amor

Ainda na província de Assuão, os dois imponentes Templos de Abu Simbel, também conhecidos por Templos Núbios, são igualmente Património Mundial da UNESCO e também eles foram, em 1968, desmontados em grandes blocos e reconstruídos 65 metros acima do nível inicial, a apenas 280 metros de distância do local original.

No Grande Templo, ou Templo de Ramsés II, as quatro estátuas colossais representam o faraó em diferentes fases da vida. Enquanto o Templo Pequeno é dedicado à mulher preferida, Nefertari, prestando culto à deusa do amor e da beleza, Hathor. Na fachada, as estátuas da rainha têm a mesma dimensão que as do faraó, sendo um dos únicos exemplos em que tal acontece (o normal é serem muito menores).

Os interiores de ambos são esplendorosos e merecem cada minuto que dediquemos a admirar as suas paredes e estatuária.

Templo de Edfu, tesouro arqueológico

Estamos no mais bem preservado templo da dinastia ptolemaica, muito por conta de ter estado enterrado durante milhares de anos. É muito impressionante percorrer estes edifícios, exemplos perfeitos da arquitetura sagrada do Antigo Egito, e sentir a beleza das suas proporções, dos seus elementos decorativos, das incríveis colunas interiores.

O Templo de Edfu (Edfu fica a cerca de 90 quilómetros a sul de Luxor, ainda na província de Assuão), é também chamado de Horus, o deus falcão.

Tebas, o centro do mundo

Tebas foi capital do Egito durante o Império Novo. Esplendorosa, de riquezas incomensuráveis, a antiga Tebas e a sua necrópole estão classificadas como Património Mundial pela UNESCO. De visita obrigatória, o Complexo de Karnak, com o notável templo de Amon, o grande Salão Hipóstilo e as suas emblemáticas colunas com mais de 20 metros de altura, com relevos, hieróglifos e elegantes capitéis de elementos florais.

Uma imensa avenida ladeada de pequenas esfinges liga ao não menos famoso Templo de Luxor, cuja beleza é sublimada se visitado ao anoitecer. Menor em dimensão que Karnak, é também dedicado ao deus Amon e também foi ampliado por variadíssimos faraós durante séculos, ocupado por Alexandre, o Grande, e cobiçado pelos romanos. Na entrada, duas imagens colossais de Ramsés II e um grande obelisco de granito rosa, com 25 metros de altura. Para a simetria ser perfeita, falta o obelisco que está, hoje, na Place de La Concorde, em Paris. Uma palavra ainda para as colunas de Amenophis III, algumas com a original forma do papiro, facto que sublinha a sua importância no Antigo Egito.

Vale dos Reis, terreno sagrado

A necrópole dos faraós do Império Novo (a partir de 1.500 a.C.), Vale dos Reis, foi local escolhido com critério e inspiração divina.

Primeiro, está na margem oeste do Nilo, já que o sol se põe (“morre”) nesse ponto cardeal. Depois, foi encontrada uma zona do vale que está no sopé de um monte com forma piramidal o que, sendo a pirâmide o símbolo da vida eterna para esta civilização, foi visto como sinal divino.

São mais de 60 túmulos escavados nas montanhas de Tebas para impedir os roubos dos valiosos tesouros enterrados com os mortos (mas a verdade é que ao longo da história, todas as câmaras funerárias foram saqueadas exceto três, Yuya, Tuya e Tutankhamon). Ao percorrer as galerias, câmara funerária e corredores dos túmulos de Ramsés IV e Séti I, somos esmagados pela força da cor, pela precisão do traço dos hieróglifos, pela profusão de elementos decorativos e padrões maravilhosos.

Final do romance… perdão, final da viagem

Percorrer as águas suaves do Nilo a bordo do Steam Ship Sudan é entrar no domínio da literatura. Sentimo-nos verdadeiras personagens de Agatha Christie, na elegância das refeições a bordo, nas chaises longues exteriores, nas magníficas cabines com todo o ambiente da época… Mas esta é também uma viagem que desperta o nosso lado “Indiana Jones” e quase desejamos ter sido arqueólogos. Em cada sítio, em cada pedra, em cada templo.

A história do Antigo Egito, a escala das construções que nos mostra o verdadeiro significado da palavra “colossal”, o valor de um rio que atravessa desertos. Também os contrastes do que vamos vendo – as zonas mais povoadas, com cenários urbanos sem regra aparente, e as zonas agrícolas; as pequenas felucas e a agitação dos cruzeiros modernos; a mescla de gente e o frenesim do comércio. Tudo isto ecoa na nossa cabeça quando desembarcamos, em Luxor.

O Egito fica gravado em nós e já só apetece voltar.

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