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Receitas

O rei que virou gelatina

Um doce criado em 1920, durante a visita do soberano da Bélgica ao Brasil, que contribuiu para plantar simbolicamente a semente da industrialização nacional

  • Texto: J. A. Dias Lopes
  • Fotografia: Luiz Henrique Mendes
17 de Junho, 2026

A família real conheceu o Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis, Santos, São Paulo e Belo Horizonte. Em todas essas cidades mereceu recepção calorosa. O povo afluiu às ruas para aplaudi-la. Em Belo Horizonte, o poeta Carlos Drummond de Andrade, na época com 17 anos de idade, registrou seu deslumbramento ao assistir o soberano atravessar solenemente uma das principais vias da cidade, projetada para funcionar como eixo norte-sul do perímetro urbano. Fez isso no poema A Visita do Rei, publicado em Boitempo – Esquecer Para Lembrar (Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2017): “Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena/ onde só passam dia e noite, mês a mês e ano, burocratas, estudantes, pés-rapados./ Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,/ primeiro rei (ou verei outros?) na minha vida/ Não tem coroa de rei, barbas formidáveis de rei,/ armadura de rei, resplandecente ao sol da Serra do Curral (…)”.

O historiador Carlos Ditadi, do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, conta que o governo do então presidente Epitácio Pessoa preparou a capital do Brasil para recebê-los, realizando grandes obras públicas. Era a primeira visita de um rei europeu à América do Sul. Além disso, a República Brasileira, que três décadas antes derrubara o regime de D. Pedro II, parecia saudosa do glamour da monarquia. A cidade do Rio de Janeiro concluiu a Avenida Niemeyer, inaugurada oficialmente pelo soberano belga a 27 de setembro, e construiu o Mirante da Gruta da Imprensa, cuja designação oficial seria Viaduto Rei Alberto. Pelo mesmo motivo, concluiu a Avenida Delfim Moreira. A Rua Rainha Elisabeth, ligando os bairros de Copacabana e Ipanema, foi batizada com o nome da soberana visitante.

A Gelatina Rei Alberto reproduz as cores da bandeira belga, que é formada por três listras verticais: preta (representada no doce pelo purê de ameixa), amarela (ovos moles) e vermelha (gelatina de morango, framboesa ou cereja). O casal real ficou encantado com a inesperada homenagem. A culinarista e escritora Maria Stella Libânio Christo (1918-2011), no livro Fogão de Lenha – Quitandas e Quitutes de Minas Gerais (Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1977), publica a receita da sobremesa com a seguinte informação: “Servida no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, quando da visita dos soberanos belgas”. Entretanto, não a chama de Dessert Brésilien, como figurou no cardápio do banquete e sim pelo nome popularizado entre os brasileiros: Gelatina Rei Alberto.

Arhur Bernardes virou seu fã apaixonado. Ele ocupou o cargo de governador de Minas Gerais até conquistar o mandato de Presidente da República, em novembro de 1922. Então, segundo a tradição, levou a receita da Gelatina Rei Alberto, junto com sua cozinheira-doceira, para o Palácio do Catete, do Rio de Janeiro, sede do Poder Executivo Nacional. Ali a novidade entrou para o cardápio do Presidente da República e migrou país afora. Chegou até ao Rio Grande do Sul, onde os soberanos belgas sequer estiveram. Dois gaúchos que ocuparam a Presidência da República foram seus apreciadores: Getúlio Vargas e Emílio Garrastazu Médici. O primeiro era devoto confesso. Em 1982, a família de Getúlio Vargas recordou o centenário do seu nascimento lembrando o prazer que lhe dava saborear a Gelatina Rei Alberto. A nora Vera Tavares Vargas, casada com Maneco Vargas, um dos filhos do ex-ditador e ex-presidente, preparou-a para uma reportagem do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

O banquete oferecido aos soberanos pelo governador mineiro foi talvez o mais refinado da estada ao Brasil, com um cardápio todo em francês, como era habitual na época. Filezinhos redondos de cordeiro converteram-se em noisettes; macucos selvagens brasileiríssimos, desossados e escalfados, servidos com trufas e provavelmente escalopes de foie gras, receberam o nome de macucos truffés à la royale. No final, a sobremesa multicolorida, batizada de dessert brésilien, depois Gelatina Rei Alberto, que contribuiu para plantar simbolicamente a semente da industrialização nacional.

Arthur Bernardes, consciente ou não, lançou a base do processo de transformação da economia brasileira, até então predominantemente agrária ou artesanal, que alcançou desenvolvimento significativo a partir da década seguinte, no governo Getúlio Vargas, estimulada pela crise de 1929 e graças à política de substituição de importações. O governador mineiro aproveitou para mostrar a Alberto I o potencial siderúrgico do seu estado e, por tabela, do país. Pouco depois da visita do soberano belga, chegava uma missão técnica que avalizou a conveniência do negócio. Em dezembro de 1921 surgiu a moderna Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, empresa pioneira da indústria pesada brasileira.

Rei Alberto é lembrado na Bélgica por seu papel durante a Primeira Guerra Mundial, quando resistiu heroicamente às agressões inimigas no início das operações, comandando suas tropas no campo de batalha. “A Bélgica é uma nação, não uma estrada”, reagiu ele quando o exército imperial alemão pretendeu cruzar os domínios belgas, a caminho da França. Após o conflito, empreendeu avançadas reformas políticas e econômicas no país, como a introdução do sufrágio universal. Seus conterrâneos também o recordam pelas expedições científicas e paixão pelo alpinismo. Aliás, reinando de 1909 até 1934, morreu justamente em um acidente de escalada, na região de Ardenas, repleta de colinas montanhosas e partilhada principalmente pela Bélgica e Luxemburgo, mas que se estende ainda à França.

A receita que ilustra este texto é ensinada por uma de suas principais divulgadoras, a renomada doceira porto-alegrense Maria Teresa Schaan Pessano, autora de livros como 40 Anos Cozinhando Com Requinte (Editora Rígel, Porto Alegre, RS, 1998). Ela a aprendeu com a mãe, Lourdes Schaan (1911-2002), também grande doceira. Que se saiba, os belgas de hoje não fazem a menor ideia do que seja a imperdível Gelatina Rei Alberto. Pouca sorte a deles, não é?

Gelatina Rei Alberto
RECEITAS

Gelatina Rei Alberto

Ingredientes:

  • Gelatina com morangos

    • 1 kg de morangos frescos e maduros
    • 100 ml de água
    • 250 g de açúcar
    • 10 g de folhas vermelhas de gelatina (amolecidas previamente em um pouco de água fria)

     

    Compota de Abacaxi

    • 300 g de abacaxi fresco e maduro, picado em pequenos cubos
    • 100 g de açúcar

     

    Purê de ameixa

    • 300 g de ameixas pretas em conserva
    • 200 ml de água
    • 150 g de açúcar

    Ovos moles (podem ser substituídos por fios de ovos)

    • 250 g de açúcar
    • 200 ml de água
    • 15 gemas médias passadas por uma peneira
    • 80 g de manteiga
    • 2 gotas de essência de baunilha

     

    Finalização

    • Merengue batido em ponto de suspiro

     

    Decoração

    • Ameixas secas

Modo de preparo:

GELATINA COM MORANGOS
1. Ferva os morangos com a água, o açúcar e depois bata no liquidificador.
2. Esprema a gelatina e junte-a em seguida à mistura (ainda quente) dos morangos.
3.Coloque em taças e reserve na geladeira para adquirir textura.

COMPOTA DE ABACAXI
4. Misture o açúcar ao abacaxi e leve ao fogo brando, mexendo, até reduzir um pouco. Reserve.

PURÊ DE AMEIXA
5. Junte as ameixas à água e coloque-as para ferver, até ficarem macias. Descarte os caroços, amasse as ameixas com um garfo, incorpore o açúcar e retorne ao fogo, para engrossar um pouco. Reserve.

OVOS MOLES
6. Em uma panela, misture o açúcar com a água e as gemas. Adicione a manteiga e mexa em fogo brando, até levantar bolhas. Incorpore a baunilha e desligue o fogo. Deixe esfriar dentro da própria panela, sem mexer.

FINALIZAÇÃO
7. Retire as taças da geladeira e disponha a compota de abacaxi sobre a gelatina.
8. Em cima, distribua o purê de ameixa e depois os ovos moles. Guarde na geladeira.
9. No momento de ir à mesa, finalize a sobremesa colocando o merengue. Decore cada taça com uma ameixa e sirva imediatamente.

Rende de 8 a 10 porções.

Dica:

 

Receita preparada por Massimo Ferrari, proprietário do espaço para e eventos e rotisseria Felice e Maria – Rua Helion Póvoa, 65 – Vila Olímpia – São Paulo – SP – Tel.: (11) 3849-2504.

 

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