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Opinião

O vinho no universo do luxo

José Peñin

Marca, preço, origem, escassez, ilusão social. Todos estes adjetivos podem atribuir-se ao vinho como produto de luxo. Mas o que distingue um bem que era essencialmente alimentar de outros que usualmente integram a categoria do luxo?

  • Texto: José Peñin
10 de Julho, 2026
O vinho no universo do luxo

Todos os luxos são inúteis (exceto para aqueles que os vendem), a não ser que, indiretamente, a aquisição do luxo permita ao adquirente conviver para outros fins com a casta exclusiva dos poderosos. Já dizia Vicenzo Gioberti, político italiano de Dezanove: “O luxo é tudo aquilo que deve ser considerado supérfluo para a felicidade do homem”.

A que luxo me refiro? Para pertencer à categoria desse luxo que quero detalhar, não deveremos apenas contar com preços altos, mas também com exclusividade, prestígio mundial, história e pedigree, apenas ao alcance do bolso de alguns poucos.

Os luxos mais conhecidos são as marcas de joias, relógios, moda e perfumes. Patek Philippe, Prada, Chanel, Dior ou Rolex.

Produtos de preços descarados, produção intencionalmente escassa, associados ao uso das elites endinheiradas que marcam um estatuto elevado que, por si só, fazem parte das marcas de prestígio social a nível mundial.

No vinho, o luxo deve ser abençoado pelas casas de leilões quando certas marcas, avaliadas por uma longa história, são consideradas quase como obras de arte. Para chegar a este olimpo, o vinho requer um longo percurso avaliado por referências históricas, citações na literatura e pertença a toda uma saga familiar de reputação, longe – isso sim – de ser um objeto publicitário que produziria um efeito negativo.

Categorias do luxo

Existem dois modelos de luxo: aquele objeto que, pela sua fama, é reconhecido por todos os estratos sociais como algo inalcançável pelo preço e o modelo de luxo só conhecido por uma elite endinheirada, culta e com pedigree. Para que seja compreensível, vou colocar o exemplo dos relógios. Qualquer cidadão ouviu falar de um Rolex, mesmo que não esteja ao alcance do seu bolso, enquanto um Patek Philippe, ainda mais caro e menos conhecido, só o viu o rico com “classe” herdada, mais informado e com maior linhagem. Existe um fenômeno curioso que marca o perfil real do milionário culto, elegante, experiente e discreto. Embora apresente um grande número de joias enológicas na sua garrafeira privada, não faz delas ostentação num restaurante. Só pede marcas de prestígio não muito conhecidas diante do novo rico, menos culto, que pede Dom Pérignon Rosé 2005 ou Romanée-Conti, exibindo uma ostentação desmedida, até a pedir ao sommelier que encha o copo até ao bordo.
A produção escassa intencional para os outros produtos que comentava no início não se verifica no vinho e o número de garrafas estará sujeito à dimensão do cru ou parcela ilustre. Só há uma exceção: Dom Pérignon, cuja produção alcança cinco milhões de garrafas sem estar sujeita a um vinhedo determinado. É o único fenômeno mundial onde o volume não beliscou a sua reputação. Bem entendido que se trata do mito mais barato do planeta (177€ a garrafa) frente aos 12.000€ do Romanée-Conti, com uma produção de 5.000 garrafas anuais.

França, berço do vinho de luxo

O requinte na cultura, nas artes, na moda, na culinária e no vinho teve e continua a ter sobrenome francês. Não obstante, são os ingleses que elevam aos céus as principais marcas de vinhos franceses. Como país não produtor, não bebia o vinho como alimento mas apenas por puro prazer, já que foram os primeiros receptores contemporâneos. Grande parte dos vinhos mais prestigiados foram promovidos pelos ingleses donos do comércio marítimo e como negociantes. E assim o fizeram também com Jerez, Porto e Madeira.

Desde o século XVII, nas frondosas garrafeiras particulares da alta sociedade britânica, abundavam os tonéis de vinhos generosos e doces e, mais tarde, as garrafas de Champagne e Bordeaux, principalmente. Os czares eram autênticos sabujos por disporem das melhores marcas de Champagne. Os episódios bélicos da Segunda Guerra Mundial tiveram cenas que mostravam a importância do vinho de luxo na rapina dos invasores. Hitler não levou só obras de arte, mas também coleções inteiras de vinhos franceses. Na série televisiva Band of Brothers há uma cena em que as tropas americanas, ao ocuparem o retiro hitleriano do Ninho da Águia, contemplam com certa cobiça as ilustres garrafas das melhores marcas bordalesas, repartindo-as entre si como se tivessem descoberto autênticas obras de arte.

 

Essa história persiste até hoje entre os donos do grande capital no momento de rechear as suas opulentas garrafeiras pessoais. Qualquer que seja o preço de ser um bom colecionador de vinhos, guarda na sua adega o espaço mais relevante para as joias bordalesas. Existem grandes colecionadores do mundo que, nas suas garrafeiras privadas, fazem predominar, por esta ordem, os grandes vinhos de Bordeaux, Borgonha e Champagne. Se em cada adega específica não houver grandes vinhos franceses, o seu proprietário estará fora da casta.

Nos últimos anos, numa viagem a Hong Kong, tive a oportunidade de visitar as Crown Wine Cellars. Um enorme armazém subterrâneo localizado numa montanha como antigo paiol militar. É algo como um banco de grandes vinhos onde se guardam a sete chaves as joias vinícolas dos milionários de Singapura, Shangai ou Hong Kong. Com todas as medidas de segurança e por salas blindadas, percorri os seus longos corredores, onde pude ver a enorme lista das lendas do vinho gaulês, seguida muito longe de marcas californianas dos anos setenta e sessenta, os Portos épicos de Graham’s 1945 ou Taylor’s 1950, algum Madeira Blandy’s velhíssimo e, como algo exótico, Vega Sicilia.

O luxo ibérico

A Espanha ainda é jovem para se integrar na lógica de vinhos de renome que só concedem – repito – os catálogos das leiloeiras Christie’s e Sotheby’s. Tal não quer dizer que no catálogo espanhol não haja vinhos reputados que tenham participado em leilões nestes templos de comércio. Em ocasiões distintas, assisti a leilões londrinos em que participaram os Vega Sicília, Marquês de Murrieta e Marquês de Riscal, cuja quotização era elevada, se bem que não alcançava os valores chamativos de Bordeaux e Porto.

Fora das fronteiras hispânicas, e até aos anos setenta do passado século, a marca Domecq e, em segundo lugar, Osborne, chegaram a ser a joia da coroa do Sherry, inclusive do vinho espanhol, confirmando que o vinho historicamente mais prestigiado a nível mundial foi o de Jerez. No entanto, o obstáculo de identificar a colheita em cada garrafa, além de ser um vinho de solera, dificultou a possibilidade de participar nos leilões de prestígio e foi um travão para entrar no seleto clube do luxo. Não sucedeu assim com o Porto, que os próprios ingleses, ao inventarem o “vintage” ou a colheita ostentada no rótulo, permitiram que as suas garrafas fossem ícones autênticos da capacidade de envelhecer um vinho. Michael Broadbent, um grande entendido em Vinhos do Porto e também o responsável pelos leilões da Christie’s durante muitos anos, propiciou a presença dos grandes Portos nos leilões elitistas.

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