

A França reaprende a vindima
Como os viticultores reagiram ao verão mais quente da história
Vindimadores no campo em pleno agosto, o verão mais quente já medido na França, florestas em chamas na Gironda: manchetes do mundo inteiro anunciaram a colheita mais precoce da história, e o Ministério da Agricultura projeta a menor safra desde 1957. Seis vozes de primeira linha, dos Drouhin à Moët & Chandon, de Beaucastel a Saint-Julien, contam o que decidiram com a uva na mão, e o que isso diz do clima que vem.
- Texto: Wandel DA ROCHA

Robert DrouhinJoseph Drouhin

Philippe DrouhinJoseph Drouhin

Frédéric DrouhinJoseph Drouhin

Benoît GouezMoët & Chandon

César PerrinBeaucastel

François-Xavier MaroteauxBranaire-Ducru
Joseph Drouhin · Moët & Chandon · Beaucastel · Branaire-Ducru
Entre 31 de agosto e 4 de setembro, com as primeiras cubas em fermentação, conversei longamente, em entrevistas exclusivas para a GULA, com seis protagonistas da safra 2026 na França.
Seis vozes, quatro regiões
Onde estão as casas ouvidas pela GULA entre 31 de agosto e 4 de setembro.
Em vinho, localização esquemática das regiões vitícolas citadas, a partir de dados do INAO (contornos generalizados; no Rhône, só o sul). Pontos nos municípios das casas; Beaucastel fica em Courthézon, dentro da denominação Châteauneuf-du-Pape. Base cartográfica: Natural Earth; centros municipais: geo.api.gouv.fr. Arte: Gula.
Nenhum dos seis falava de um ano concluído; todos, de decisões tomadas com a uva na mão. Começo pela velocidade.
Até meio grau de álcool por dia.
Foi nesse ritmo que o açúcar subiu nas uvas da Moët & Chandon nos últimos dias antes da colheita, segundo Gouez. Meio grau de álcool potencial, isto é, meio ponto a mais no teor alcoólico que o vinho teria se todo o açúcar da uva fermentasse, a cada 24 horas; o normal, no fim da maturação, é 0,2 ou 0,15. Num fim de semana, o de 15 de agosto, um lote de chardonnay passou de 11,5 para mais de 12,5 graus.
Champagne
Na Moët & Chandon, da floração à colheita, em 2026:
68dias
O Comité Champagne chamou 2026 de OVNI: “objeto vindimável não identificado”.
Dias entre a floração e a colheita nos vinhedos acompanhados por Benoît Gouez, chef de cave da Moët & Chandon.
Champagne · Moët & Chandon
Nos últimos dias antes da colheita, o açúcar das uvas subiu neste ritmo:
0,5grau de álcool potencial por dia
Álcool potencial: o teor que o vinho teria se todo o açúcar da uva fermentasse. Fonte: Benoît Gouez.
Gouez retoma uma expressão do Comité Champagne para 2026: OVNI, “objeto vindimável não identificado”. Entre a floração, quando a vinha floresce e começa a formar o cacho, e a colheita, a referência atual nos vinhedos que ele acompanha gira em torno de 85 dias; o recorde, até então, eram os 81 dias de 2003. “Este ano, foram sessenta e oito dias.” Os primeiros mostos entraram na adega em 10 de agosto; o vinhedo próprio foi colhido entre 15 e 28 de agosto, pela primeira vez inteiramente dentro do mês.
Na Borgonha, Philippe Drouhin começou a colher em 17 de agosto. “É a primeira vez na vida que termino minha vindima em agosto”, me disse.
Com números assim, 2026 saiu dos boletins técnicos e ganhou as manchetes. O verão foi o mais quente já medido na França, com 53 dias de onda de calor e uma seca dos solos sem precedentes, segundo a Météo-France; na Europa Ocidental, junho e julho foram os mais quentes já registrados, segundo o serviço climático europeu Copernicus. A imprensa generalista, de agências internacionais a jornais alheios ao vinho, passou a tratar 2026 como a safra mais quente e precoce da história; Bordeaux, Champagne e Borgonha registraram, cada uma, um recorde de precocidade.
Calor generalizado, chuva desigual
O verão de 2026 nas quatro regiões administrativas das casas ouvidas, em relação à normal de 1991–2020. Dados regionais, que ajudam a contextualizar os contrastes relatados nas entrevistas; a única região com chuva acima do normal é a de Beaucastel, Provence-Alpes-Côte d’Azur.
- ChampagneGrand Est
- BorgonhaBourgogne-Franche-Comté
- BordeauxNouvelle-Aquitaine
- RhôneProvence-Alpes-Côte d’Azur
- Françareferência nacional
Fonte: Météo-France, Bilan climatique de l’été 2026 (junho a agosto), p. 13 e indicador nacional. Regiões administrativas, não vinhedos. Arte: Gula.
Se a história parasse aí, caberia numa manchete: a França colheu cedo como nunca. Não parou aí. Robert Drouhin acompanha cada vindima da Borgonha há sete décadas, e sua memória vai mais longe: desde a adolescência provou, na mesa da família, os vinhos das safras de 1938 a 1968. Mais do que 2003, o verão da grande onda de calor, 2026 lhe lembra 1976: quente e, sobretudo, seco, com vinhas desfolhadas na parte baixa das encostas, peles grossas e taninos secos. “Não soubemos maturar bem aqueles vinhos, nem mesmo vinificá-los”, admite, e por isso 1976 não foi tão grande quanto poderia ter sido. A diferença, acredita, é que a experiência de hoje pode fazer melhor. É memória, não previsão, oferecida com o otimismo de quem já viu muitas safras.
Na Champagne, nem essa referência existe. Os aposentados da Moët & Chandon, recebidos na casa na semana anterior à nossa conversa, falavam de 1976, “mas era ainda diferente”, diz Gouez; o ano mais próximo em maturidade, acidez e pH seria 1959, de que ninguém mais tem memória. “Estávamos realmente em território desconhecido.”
O calor adiantou todos os relógios da França vinícola, mas não os acertou pela mesma hora. Em Châteauneuf-du-Pape, uma chuva de meados de agosto devolveu tempo à vinha. Em Bordeaux, o Château Branaire-Ducru esperou até 31 de agosto para começar, duas semanas depois de alguns tintos da margem direita e apenas quatro dias antes da data de 2025. A variável que mais explicava as diferenças não era o calor, que foi geral. Era a água.
Agosto em quatro tempos
Precoce, em 2026, não foi uma data. Foi um mês inteiro.
Agosto de 2026, nas vinhas
Marcos citados pelos entrevistados, não datas oficiais de abertura.
- 3–4AGOBordeauxPor volta desses dias, começa a colheita das uvas para crémant.
- 10AGOChampagneOs primeiros mostos chegam à Moët & Chandon.
- 15AGOBordeauxPor volta desse dia, o Cheval Blanc e vizinhos da margem direita começam a colher tintos.
- 17AGOBorgonhaPhilippe Drouhin começa a colher.
- 20AGORhôneCésar Perrin começa em Beaucastel. É o dia do aniversário dele.
- 31AGOBordeauxBranaire-Ducru, em Saint-Julien, abre a vindima.
- 13SETPara comparar: 1976Em Bordeaux, Maroteaux cita 13 de setembro.
Para Gouez, a compressão não foi desordem: o que viu, diz, foi uma sincronização muito precoce, em equilíbrios muito elevados. “2026 é um equilíbrio alto.” Em 2025, houve margem para esperar a maturidade aromática; em 2026, “tudo estava lá”, e não havia mais a possibilidade de esperar.
Na Borgonha, a compressão virou a ordem das coisas de cabeça para baixo. Philippe descreve cinco ondas de calor e uma ordem de colheita “completamente perturbada”: as vinhas mais estressadas foram colhidas primeiro, e não são as que costumam abrir a vindima. Frédéric lembra as vindimas de fim de setembro e outubro da infância, quando apoiava a bicicleta no muro da adega ao sair da escola para ver o fim da colheita; hoje fala de lotes a 14, 14,5 e 15 graus de álcool.
Bordeaux, de longe, parece uma data só. De perto, é um mosaico. Maroteaux desfia o calendário: os crémants, espumantes da região, foram colhidos em 3 e 4 de agosto; os brancos começaram no dia 10 e terminaram no início de setembro; alguns tintos da margem direita, o Cheval Blanc entre eles, perto de 15 de agosto; o Clinet, em 3 de setembro; Branaire, em 31 de agosto. Ele lembra que 1989 começou no mesmo dia 31, mas foi até 29 de setembro, e que 1976, em Bordeaux, só começou em 13 de setembro; cita 1893, lido nos livros, como ano possivelmente mais precoce ainda. Para ele, não houve decisão mais difícil que o habitual: a data se impôs, e Bordeaux, com 2025 na cabeça, tinha se organizado para colher mais cedo.
O mosaico de Bordeaux
Uma região, cinco datas de início. Marcos citados por François-Xavier Maroteaux, não datas oficiais de abertura. Em terracota, a área queimada pelo incêndio de Saumos, o maior do verão na Gironda, como o satélite a viu em 24, 26 e 29 de julho.
- 3–4AGOComeça a colheita das uvas para crémant, em toda a região.
- 10AGOComeçam os brancos; terminam no início de setembro.
- ~15AGOTintos da margem direita, o Cheval Blanc entre eles.
- 31AGOBranaire-Ducru, em Saint-Julien. Quatro dias antes da data de 2025.
- 3SETClinet, em Pomerol.
- 1989Começou no mesmo 31 de agosto, mas foi até 29 de setembro. Em 1976, a vindima só começou em 13 de setembro.
- 1893Lido nos livros: um ano possivelmente mais precoce ainda, segundo Maroteaux.
Fonte: entrevista do autor com François-Xavier Maroteaux, 4 de setembro de 2026. Áreas das denominações: INAO, via data.gouv.fr, com contornos generalizados; contorno e hidrografia: IGN; châteaux nos endereços oficiais (BAN). Área queimada: contornos observados por satélite em 24, 26 e 29 de julho, Copernicus EMS (EMSR899), simplificados; na imagem de 29 de julho, 31.600 ha; o balanço da prefeitura da Gironda no mesmo dia dava 42.000 ha, por outro método. Os incêndios das Landes ficam fora do quadro. Distância em linha reta entre a área queimada e a denominação Saint-Julien, medida sobre os contornos. Em cinza, as denominações de contexto: Médoc, Haut-Médoc, Pauillac, Margaux e Sauternes. Arte: Gula.
E há o sul do Rhône. César Perrin começou a colher em 20 de agosto, dia do seu aniversário. O ciclo tinha disparado como em toda parte, mas a colheita não chegou fora de hora. “Continua sendo uma safra precoce. A vindima não é precoce”, resume. Tudo na vinha veio mais cedo, explica, mas, com esse calor, a planta trava e para de amadurecer. “É precoce, mas não excepcionalmente precoce.” A distinção é a chave de 2026: entre o ciclo que avança e a colheita que acontece, alguma coisa interveio. Em Beaucastel, foi a chuva.


Onde a chuva caiu
Philippe é preciso sobre o que tornou o verão crítico: não o calor sozinho, mas o calor somado ao esgotamento da água no solo. As duas primeiras ondas de calor passaram sem que a vinha sofresse, porque o inverno chuvoso tinha deixado reservas; foi a partir de julho, com o déficit de chuva, que a situação se agravou. Em Rully, na Côte Chalonnaise, caíram 50 milímetros em 15 de julho e outros 30 no dia 31. Essas parcelas deram bagas de tamanho normal, até grandes, suculentas. Boa parte da Côte d’Or, que não viu essa chuva, deu bagas minúsculas, de pele grossa e pouco suco. Na estimativa dele, 90% das vinhas deram uvas excepcionalmente pequenas. As jovens sofreram mais; idade, solo, exposição e vigor mudaram tudo de uma parcela para a vizinha.
A hierarquia também sofreu. “Todos os crus célebres, aqueles que historicamente não tinham dificuldade para amadurecer, foram também os mais expostos ao calor extremo”, observa Philippe; as encostas viradas para o norte e as Hautes-Côtes, que quase nunca amadureciam por completo, deram um salto de qualidade. Redesenhar o mapa da Borgonha? “Não iria tão longe”, diz Robert: alguns premiers crus mais baixos na encosta podem ganhar galões, “mas uma mudança da cartografia, isso não”. Gouez diz algo parecido da Champagne: em anos sem problema sanitário e sem limite de maturação, as diferenças entre crus se estreitam; a escala dos crus faz sentido sobretudo nos anos difíceis.
Na Champagne, a folha continuava verde. Gouez não descreve um estresse hídrico severo generalizado, e sim uma maturação acelerada em plantas que ainda funcionavam; da janela do escritório, em Épernay, via as encostas de Aÿ, Dizy e Hautvillers ainda verdes. Para ele, aliás, é a falta de água, mais do que o calor, que dessincroniza a maturação. O problema ali foi outro: a safra veio pequena, cerca de 6.000 a 6.500 quilos por hectare contra os 8.800 da denominação, por cachos de 80 a 100 gramas em vez de 130 a 150, e porque a geada de fim de março, a mais severa desde 2003, destruiu cerca de um terço da Champagne. “Mais do que aquecimento climático, é preciso falar em mudança climática”, diz Gouez: verões mais quentes, primaveras mais secas, mas também geadas de primavera mais severas.
Champagne: menos uva
Na Moët & Chandon, segundo Benoît Gouez: cachos mais leves, menos quilos por hectare e um terço da região perdido para a geada de março.
O cacho
O rendimento, em quilos por hectare
- Teto comercializável fixado pelo Comité Champagne para 20268.800
- Colhido nos vinhedos da Moët & Chandon, segundo Gouez6.000 a 6.500
A geada de fim de março
Cerca de um terço da Champagne destruído pela geada mais severa desde 2003.
Fonte: entrevista do autor com Benoît Gouez, 2 de setembro de 2026; valores aproximados, citados pelo entrevistado. Teto de rendimento: Comité Champagne, comunicado de 22 de julho de 2026. Arte: Gula.
Na primeira estimativa do Ministério da Agricultura, de 7 de setembro, a Champagne perde quase metade da colheita de 2025, e a Borgonha e o Beaujolais, um terço da média recente. A França inteira produziria menos de 34 milhões de hectolitros, 17% abaixo da média de cinco anos e, se o número se confirmar, o menor volume desde 1957, por efeito da seca, do calor e do arranquio de vinhas. Frédéric Drouhin faz a conta da Borgonha: 2021, geada; 2024, míldio; 2026, calor extremo, e metade da colheita perdida em cada um. “Não temos mais a garantia das colheitas.”
No sul do Rhône, a planta tinha freado. César fala de cerca de trinta dias de calor extremo, durante os quais as videiras entraram em “modo economia” e limitaram o amadurecimento: as folhas se fechavam para proteger os cachos. Por volta de 15 de agosto, cerca de 75 milímetros de chuva desbloquearam a vinha e prolongaram a maturação. Na leitura dele, essa água afastou um perfil parecido com o de 2003. Beaucastel espera algo como 25 hectolitros por hectare. A vinha, ele repete, é bem mais inteligente do que nós.
Famille PerrinRhône · Château de Beaucastel
Sobre a chuva de meados de agosto, depois de trinta dias de calor extremo
A vinha é bem mais inteligente do que nós e reage muito melhor ao aquecimento climático do que os humanos.
Em Bordeaux, os incêndios que, em julho e agosto, consumiram dezenas de milhares de hectares de floresta na Gironda e nas Landes correram o mundo. Maroteaux desloca o foco. “Nosso problema para 2026 não é o problema dos incêndios. É, antes, o problema da seca.” Na avaliação dele, as chamas não chegaram perto dos vinhedos, e a fumaça passou por Saint-Julien num sábado sem estagnar; não prevê impacto. O que a seca fez foi encolher as bagas e o volume. Ainda assim, nas uvas que provou, encontrou maturidade, finura e frescor, não sobrematuração.
© Célestin CoutaudBordeaux · Saint-Julien
Sobre os incêndios de julho e agosto na Gironda e nas Landes
Nosso problema para 2026 não é o problema dos incêndios. É, antes, o problema da seca.
O calor acelera. A água decide se a aceleração continua, trava, sincroniza tudo de uma vez ou se fragmenta parcela por parcela.
A água, lugar por lugar
O calor foi geral; a chuva, não. O que cada um viu na própria vinha, não medições oficiais.

Champagne · Épernay
A folha continuava verde: Gouez não viu estresse hídrico severo, e sim maturação acelerada em plantas que ainda funcionavam.



Borgonha · Beaune
Em Rully, 50 mm em 15 de julho e 30 mm no dia 31: bagas de tamanho normal. Boa parte da Côte d’Or não viu essa chuva: bagas minúsculas em cerca de 90% das vinhas, na estimativa de Philippe Drouhin.

Bordeaux · Saint-Julien
Em Saint-Julien, Maroteaux aponta a seca, não os incêndios, como o problema de 2026: foi a falta de água que encolheu bagas e volume.

Rhône · Châteauneuf-du-Pape
Cerca de 75 mm por volta de 15 de agosto desbloquearam a vinha, travada por trinta dias de calor extremo, e prolongaram a maturação, segundo César Perrin.
Fonte: entrevistas do autor com Philippe Drouhin, Benoît Gouez, César Perrin e François-Xavier Maroteaux, agosto e setembro de 2026. Em vinho, localização esquemática das regiões vitícolas citadas, a partir de dados do INAO (contornos generalizados; no Rhône, só o sul). Pontos nos municípios das casas; Beaucastel fica em Courthézon, dentro da denominação Châteauneuf-du-Pape. Base cartográfica: Natural Earth; centros municipais: geo.api.gouv.fr. Arte: Gula.
Quarenta e oito horas

Quando a maturação avança meio grau por dia, a margem de erro se mede em horas. Na Moët & Chandon, com 3.500 vindimadores, 700 deles mobilizados de saída na Côte des Blancs, o setor do chardonnay, com equipes realocadas de outras áreas, o plano de colheita era refeito todas as manhãs para as 48 horas seguintes. Gouez descreve decisões coletivas, alimentadas por 25 anos de dados, pela degustação e por inteligência artificial. Do ponto de vista da informação, ninguém foi pego de surpresa. Do ponto de vista da logística, sim: a casa teria colhido a partir de 12 ou 13 de agosto, mas hotéis, campings, casas de temporada e mobile homes que alojam vindimadores ainda estavam cheios de turistas. “A França, antes de 15 de agosto, não funciona”, resume Gouez. A vindima de verdade começou na segunda-feira, 17.
Segundo Benoît Gouez, chef de cave da Moët & Chandon.
Com volumes pequenos, os problemas se invertem. Na Moët, o risco era deixar uva esperando no cais, ao calor, até juntar um lote de prensagem; Gouez preferiu assemblar cedo lotes compatíveis de Cramant e Chouilly, dois grands crus a cinco quilômetros um do outro, prensar depressa e fermentar logo. O que lhe importa, diz, não é guardar todas as origens separadas, e sim guardar separados os potenciais: maturidade, sanidade, qualidade de prensagem. Em Branaire, o novo cuvier, a adega de fermentação com tanques dimensionados para cada parcela, serviu justamente para o contrário: colher parcelas de rendimento minúsculo sem ter de misturar duas ou três, e extrair com precisão para guardar o frescor. Decisões opostas, pelo mesmo motivo.
Na Champagne, contou ainda um recurso que os vinhos tranquilos não têm: os vinhos de reserva, guardados de safras anteriores para as assemblagens, os cortes de lotes, variedades e anos que compõem o champanhe, e que Gouez descreve como um amortecedor climático. Um amortecedor que se gasta: em 2026 a casa vai recorrer a ele, e Gouez já torce por uma colheita generosa em 2027 para recompor os estoques.
Na Borgonha, a decisão foi mais dura porque era binária. Diante das vinhas já desfolhadas, sem perspectiva de recuperação, Philippe colheu depressa. Mesmo entre as ainda funcionais, em geral preferiu não apostar numa chuva que talvez só diluísse as uvas por alguns dias antes de o açúcar voltar a subir, em lotes que já passavam de 14 graus potenciais; deixou algumas parcelas como teste do que a água poderia devolver, ou tirar, entre elas um Chablis Premier Cru Morein, colhido no dia da nossa conversa. Cada parcela recebeu uma resposta, e em algumas, ele admite, talvez a errada: deixar a vegetação alta, como um guarda-sol sobre os cachos, pareceu prejudicar certas parcelas, enquanto vinhas de poda mais curta e menos folhas, que transpiram menos, se comportaram melhor. Na adega, bagas pequenas significam muita casca e semente para pouco suco. A triagem ficou rigorosa, e a uva que entrou nas cubas estava sã: “nenhuma doença este ano, de nenhum tipo”. O pigeage, o gesto de afundar o chapéu de cascas no mosto para extrair cor e tanino, perdeu boa parte da razão de ser.
Frédéric resume a dúvida que fica: “Vindimamos na data certa?” Alguns colheram brancos em 2 de agosto, sem gosto; outros apostaram na chuva e esperaram até 26 ou 29. Com cem hectares para colher e uma vinha “tetanizada” pelo calor, a Maison foi antes da chuva; as parcelas deixadas para depois dela dirão se quem esperou tinha razão. “É uma experimentação”, diz.
Em Beaucastel, a decisão foi não decidir depressa. César recusou a colheita precipitada e contava com as treze variedades da propriedade para recompor o equilíbrio nas futuras assemblagens: o bourboulenc, colhido mais cedo, para guardar acidez nos brancos; o muscardin, cuja colheita começaria no dia seguinte, com papel parecido nos tintos. Duas uvas pouco conhecidas fora do Rhône.
Frédéric já prova os primeiros mostos de Puligny, Folatières, Bâtard e Montrachet, colhidos com 24 horas de diferença, e diz perceber diferenças de persistência e de identidade entre eles: “já nasceram bem, cabe a nós não fazer bobagem”. Daí a impaciência com o maior contrassenso que circula sobre a Borgonha de 2026, o de que a região teria feito “porto”. “Por favor, deixem-nos fazer os vinhos!”
©JosephDrouhinBorgonha · Maison Joseph Drouhin
Em resposta à ideia de que a Borgonha de 2026 teria feito «porto»
Por favor, deixem-nos fazer os vinhos!
Nenhuma receita serve a todos
“É também um ofício de observação”, diz Maroteaux. “Querer uma receita para todos os millésimes não é tão simples assim.” Se existe consenso entre os seis, é esse. O exemplo mais nítido é a biodinâmica.
Philippe, que conduziu as vinhas da Maison ao orgânico e depois à biodinâmica, não tem parcela testemunha para comparar. Sua leitura de 2026 é seca. “Quando as condições ficam extremas assim, biodinâmica ou não, não muda nada.” O que pareceu contar mais, na experiência dele, foi o trabalho do solo no momento certo para limitar a concorrência da vegetação pela água.
César Perrin vê o contrário. A biodinâmica, diz, “nos ajudou muito nesse período de calor”: o preparado 501, a sílica pulverizada nas folhas para favorecer a fotossíntese, e o 500, o esterco incorporado ao solo na primavera, que teria ajudado as raízes das vinhas jovens a sofrer menos com a seca. Contra o oídio, sem poder usar enxofre, que queima a folha nesse calor, pulverizou decocção de dente-de-leão. “É uma ajuda crucial”, resume, comparando-a à homeopatia. Atribui à argila branca pulverizada sobre as folhas, “o protetor solar da vinha”, cerca de 25 quilos por hectare, uma redução de 5% a 10% no açúcar, quase um grau de álcool potencial.
O debate
A biodinâmica ajudou no calor?
Dois relatos, em condições de cultivo diferentes.

Borgonha
“Quando as condições ficam extremas assim, biodinâmica ou não, não muda nada.”
Philippe Drouhin · Maison Joseph Drouhin

Rhône
“Nos ajudou muito nesse período de calor.”
César Perrin · Château de Beaucastel
Quem tem razão? A pergunta é mal formulada, porque as duas observações não são comparáveis. Beaucastel trabalha, num clima mediterrâneo em que o calor é a regra, com videiras de idade média de 70 anos, raízes profundas, meio século de biodinâmica, cerca de 2.500 pés por hectare conduzidos em gobelet, a taça baixa, sobre estacas: nos anos frescos, os ramos são amarrados para cima, para o sol; nos quentes, como 2026, deixam a vegetação cair, guarda-sol natural sobre o cacho. Há cobertura vegetal entre as fileiras e bosques em volta. A Borgonha planta em torno de 10.000 pés por hectare, em fileiras aramadas, sobre solos e histórias completamente diferentes. O mesmo guarda-sol de folhas que César elogia foi, em parte da Côte d’Or, uma aposta que Philippe hoje questiona. Uma prática não atravessa a fronteira entre dois terroirs sem pagar pedágio ao solo, à densidade e à idade da planta.
Dois jeitos de plantar

Beaucastel · Châteauneuf-du-Pape
≈ 2.500pés por hectare
Gobelet, a taça baixa sobre estacas; videiras de 70 anos em média; nos anos quentes, a vegetação cai como guarda-sol sobre o cacho. Cobertura vegetal entre as fileiras.

Borgonha · foto: Clos des Mouches, Beaune
≈ 10.000pés por hectare, na Borgonha
Fileiras aramadas, sobre solos e histórias completamente diferentes. O mesmo guarda-sol de folhas foi, em parte da Côte d’Or, uma aposta que Philippe hoje questiona.
Densidades aproximadas, segundo César Perrin: um pé a cada 4 m² em Beaucastel; um por metro quadrado na Borgonha. Fotos de arquivo: Phil Karis (Beaucastel); ©JosephDrouhin (Clos des Mouches). Arte: Gula.
As adaptações de fundo seguem a mesma lógica: cada região mexe no que pode. Frédéric quer revisar densidade, altura das plantas, mecanização e, sobretudo, as regras das denominações, escritas, lembra ele, há um século, com o clima de há um século. Fala em experimentar variedades esquecidas e em ampliar a diversidade genética: das 465 linhagens de pinot noir identificadas, segundo ele, só cerca de cinco são amplamente plantadas. Ideias em discussão, não decisões. O que ele defende desde já é o tempo: élevages longos, amadurecimento prolongado sobre as borras finas de leveduras, para devolver equilíbrio a anos solares.
Borgonha · diversidade genética
465
linhagens de pinot noir identificadas: cada cacho, uma linhagem.
cerca de5
são amplamente plantadas, segundo Frédéric Drouhin, que fala em experimentar variedades esquecidas e ampliar a diversidade genética. Ideias em discussão, não decisões.
Fonte: entrevista do autor com Frédéric Drouhin, 31 de agosto de 2026. Os dois números são dele. Arte: Gula.
Maroteaux é mais cauteloso. Não defende substituição imediata por syrah ou mourvèdre e considera a irrigação de vinhas jovens um tema a aprofundar: Saint-Julien pediu pela primeira vez, em 2026, a derrogação que a permite, mas ninguém estava equipado para dar 100 a 150 litros de água por pé. E lembra de 2021 e de 2024, anos frios, úmidos e tardios, para argumentar que uma tendência de fundo não autoriza mudanças radicais a partir de dois verões. Gouez aposta na pesquisa: porta-enxertos, precursores aromáticos, leveduras que rendam menos álcool. E formula o princípio que aprendeu em 2003: “Cabe a nós nos adaptar; não é a natureza que vai se adaptar às nossas vontades.”
Mudar sem perder a alma
Robert Drouhin formula o risco com mais clareza. O que o preocupa é a resposta ao ano. “O risco seria ter vinhas que resistam à chuva, ao calor e às doenças, boas para tudo, e que, no fim, produzam apenas um vinho padrão.” Não existe, para ele, um perfil ideal do vinho da Borgonha; existe, talvez, um para cada climat, como se chamam as parcelas delimitadas da região. O solo e a diversidade dos climats seguem sendo a âncora. Ele tem a prova na adega: nas garrafas de 1976 que guardou, a fruta se foi e os taninos secaram, mas “um Amoureuses e um Chambertin, as diferenças que havia entre eles, e que deve haver, continuam lá”.
©JosephDrouhinBorgonha · Setenta vindimas
Sobre o risco de adaptar a vinha a anos como 2026
O risco seria ter vinhas que resistam à chuva, ao calor e às doenças, boas para tudo, e que, no fim, produzam apenas um vinho padrão.
Frédéric traduz o princípio em nomes: Musigny não deve parecer Bonnes-Mares, e a leitura do terroir deve prevalecer sobre a tipologia do ano. Da Champagne, Gouez responde: numa casa que compõe seus vinhos com uvas de cerca de 280 crus, segundo ele, e vinhos de reserva de vários anos, a constância se constrói na assemblage. Não acredita em uma Champagne eterna, diz, nem em um Bordeaux ou uma Borgonha eternos: o estilo sempre evoluiu. “Não tenho 93 anos nem setenta vindimas, como na casa Drouhin, mas 28 vindimas já dão algum recuo”, brinca. A direção, na sua leitura, é boa: vinhos mais expressivos, mais de fruta, mais acessíveis.
© Moët & ChandonChampagne · Moët & Chandon
Sobre a evolução do estilo dos vinhos
Não acredito nem um pouco numa Champagne eterna. Nem num Bordeaux eterno, nem numa Borgonha eterna.
Resta a pergunta: como serão os vinhos? Nenhum dos seis deu veredito; quase todos arriscaram uma direção. Philippe lembra que, numa carreira inteira, previsões feitas durante a vindima frequentemente se revelaram erradas; ainda assim, as primeiras cubas o surpreenderam pela fruta e pela acidez, e ele brinca que o Musigny, neste momento, “está a 120 pontos no Wine Spectator”. Frédéric, que perguntou ao pai “que besteiras você fez em 1976?” para não repeti-las, projeta um ano “raro e bom”. César insiste que um ano quente não permanece necessariamente quente a vida inteira e aposta, com o mosto ainda fermentando, que 2025 será para beber mais jovem e 2026, para guardar. Maroteaux, com quatro ou cinco dias de vindima em Branaire e a insistência em esperar as vinificações, formula a expectativa comum: “Vamos nos dar conta de que tivemos condições extremas, mas que, no fim, não temos necessariamente vinhos extremos, e que a vinha tem essa capacidade de se adaptar.” Ricos, concentrados, mais álcool do que em 2025 mas não mais do que em 2022, sim; cozidos, não é o que ele espera.

Quanto ao regime climático, Philippe pisa no freio: “Por enquanto, 2026 não é o ‘new normal’.” Frédéric acha que a mudança já corre mais depressa que a adaptação da vinha, e chega a dizer que, se nada for feito, em trinta anos não haverá mais vinhedo. Cada geração dos Drouhin, lembra, teve seu desafio: Joseph, o filoxera; Maurice, duas guerras; Robert, as crises financeiras; a dele, o clima. Gouez não acredita que 2026 vire norma, mas considera a tendência certa: desde 2003, oito vindimas começaram em agosto, cinco delas desde 2018, e ele tem medo de nunca mais viver um ano como 2013, colhido em outubro. Perrin vê Beaucastel preparado para absorver um ano assim. Maroteaux não tem bola de cristal, mas tem os números: dos quatro verões mais quentes e precoces, 2003, 2022, 2025 e 2026, três estão nos últimos cinco anos; enxerga uma tendência de fundo e, na mesma frase, 2021 e 2024.
Agosto entrou no calendário da vindima
Cada quadrado é um ano; a cor diz em que mês caiu a data média de abertura da vindima na Champagne. De 1951 a 2002, essa média nunca caiu em agosto; de 2003 a 2025, caiu sete vezes. Em 2026, Gouez relata mais uma vindima iniciada em agosto.
- outubro
- 16 a 30 de setembro
- 1º a 15 de setembro
- agosto
- anos 195051525354555657585923 de set
- anos 19606061626364656667686927 de set
- anos 19707071727374757677787927 de set
- anos 19808081828384858687888930 de set
- anos 19909091929394959697989920 de set
- anos 20000001020304050607080914 de set2 em agosto
- anos 20101011121314151617181910 de set2 em agosto
- anos 2020202122232425263 de set3 em agosto + relato de 2026
Ver as datas, ano a ano
| Ano | Data média de abertura da vindima |
|---|---|
| 2026 | Média ainda não publicada; segundo Benoît Gouez, começou em agosto (relato) |
| 2025 | 26 de agosto |
| 2024 | 16 de setembro |
| 2023 | 6 de setembro |
| 2022 | 28 de agosto |
| 2021 | 13 de setembro |
| 2020 | 21 de agosto |
| 2019 | 8 de setembro |
| 2018 | 26 de agosto |
| 2017 | 1º de setembro |
| 2016 | 18 de setembro |
| 2015 | 8 de setembro |
| 2014 | 12 de setembro |
| 2013 | 30 de setembro |
| 2012 | 16 de setembro |
| 2011 | 23 de agosto |
| 2010 | 15 de setembro |
| 2009 | 12 de setembro |
| 2008 | 17 de setembro |
| 2007 | 29 de agosto |
| 2006 | 16 de setembro |
| 2005 | 16 de setembro |
| 2004 | 21 de setembro |
| 2003 | 26 de agosto |
| 2002 | 20 de setembro |
| 2001 | 27 de setembro |
| 2000 | 18 de setembro |
| 1999 | 19 de setembro |
| 1998 | 17 de setembro |
| 1997 | 18 de setembro |
| 1996 | 23 de setembro |
| 1995 | 25 de setembro |
| 1994 | 21 de setembro |
| 1993 | 14 de setembro |
| 1992 | 19 de setembro |
| 1991 | 1º de outubro |
| 1990 | 17 de setembro |
| 1989 | 12 de setembro |
| 1988 | 1º de outubro |
| 1987 | 7 de outubro |
| 1986 | 30 de setembro |
| 1985 | 30 de setembro |
| 1984 | 7 de outubro |
| 1983 | 28 de setembro |
| 1982 | 22 de setembro |
| 1981 | 30 de setembro |
| 1980 | 8 de outubro |
| 1979 | 3 de outubro |
| 1978 | 8 de outubro |
| 1977 | 7 de outubro |
| 1976 | 1º de setembro |
| 1975 | 2 de outubro |
| 1974 | 28 de setembro |
| 1973 | 28 de setembro |
| 1972 | 2 de outubro |
| 1971 | 18 de setembro |
| 1970 | 27 de setembro |
| 1969 | 1º de outubro |
| 1968 | 3 de outubro |
| 1967 | 28 de setembro |
| 1966 | 22 de setembro |
| 1965 | 9 de outubro |
| 1964 | 16 de setembro |
| 1963 | 6 de outubro |
| 1962 | 5 de outubro |
| 1961 | 21 de setembro |
| 1960 | 12 de setembro |
| 1959 | 10 de setembro |
| 1958 | 1º de outubro |
| 1957 | 20 de setembro |
| 1956 | 8 de outubro |
| 1955 | 28 de setembro |
| 1954 | 27 de setembro |
| 1953 | 16 de setembro |
| 1952 | 8 de setembro |
| 1951 | 1º de outubro |
Data média de abertura da vindima na denominação, ponderada por comuna e casta, ano a ano, segundo o Comité Champagne (série publicada pela Union des Maisons de Champagne). As médias das décadas extremas cobrem 1951–1959 e 2020–2025. 2026: ainda sem média oficial; segundo Benoît Gouez, começou em agosto. Arte: Gula.
Se 2026 não é a norma, também já não é a exceção que se olha de longe. Férias, contratação, alojamento, prensas: tudo mudou de mês, e quem organiza uma vindima está reaprendendo o ofício com agosto no calendário. A pergunta que fica vai além da data da colheita, e Maroteaux a formulou melhor do que eu: será preciso olhar tudo o que pode evoluir, “mas sem perder a alma”.
Desta safra ainda se falará por muito tempo. Neste momento, pela precocidade e pelas decisões tomadas com a uva na mão. Dentro de alguns meses, pelos rendimentos, pelos equilíbrios e pelas escolhas de adega. E por décadas, pelo que os vinhos disserem quando chegarem às garrafas e começarem a envelhecer. Só então se saberá se 2026 foi mais uma safra extrema ou se, como diz Robert Drouhin, “entramos em um período novo”. Para ele, “é uma tendência, é evidente”, e este ano “promete um belo futuro, mas talvez não seja eu quem vai aproveitá-lo”. De todo modo, já convidou para a prova: na próxima visita a Beaune, uma garrafa de 1976. Só faltará a de 2026.

Fotografias
Abertura e falas: Robert, Philippe e Frédéric Drouhin: ©JosephDrouhin; Benoît Gouez: © Moët & Chandon; César Perrin: Famille Perrin; François-Xavier Maroteaux: © Célestin Coutaud









