Herencia: a Carménère vira o jogo

Fotografia: Divulgação
Marcel Miwa

Marcel Miwa

A história já é bem documentada: as estacas de Carménère chegaram ao Chile misturadas e confundidas com a Merlot. Como resultado, as vinícolas que compraram as mudas e as propagaram pelos vinhedos tinham, na realidade, um “field blend” de Merlot e Carménère. O complicador era que as duas variedades amadurecem em momentos bastante distintos na janela da colheita.

Enquanto a Merlot amadurece precocemente, a Carménère tem um ciclo bastante tardio. Uma vez tratada e colhida como a Merlot, os vinhos resultantes recebiam o aporte herbáceo e verde da Carménère ainda não madura.

Quando o pesquisador e ampelógrafo Jean-Michel Boursiquot identificou as duas variedades misturadas nos vinhedos chilenos, no início da década de 1990, a Carménère passou a ganhar tratamento adequado e separado da Merlot.

Da safra 2007, a Viña Santa Carolina lançou o primeiro Herencia Carménère, então ícone da vinícola, a preço igualmente ambicioso, acima dos US$ 100 (cada garrafa) internacionalmente. O especialista britânico e colunista da GULA, Jamie Goode, escreveu à época que “foi uma leve decepção este vinho”. E a explicação é simples. Na época do deslumbramento dos chamados super-carménère, a competição por concentração e limites do amadurecimento da uva (uma vez que sabiam que se tratava de uma variedade tardia) levaram a vinhos pesados e difíceis de se beber, ainda que com textura polida e enorme intensidade. Na segunda safra de Herencia (2008), o vinho alcançava 15% de álcool e 60% do volume do vinho passava duas vezes por barricas de carvalho novas (200% de carvalho novo).

As mudanças na filosofia começaram em 2011, quando o chefe de enologia Andrés Caballero passou a utilizar foudres (grandes toneis de carvalho), e praticar extrações mais suaves na vinificação. Provamos em primeira mão o Santa Carolina Herencia Carménère 2019, e as mudanças são claras. O vinho ganha em frescor (agora com 14,5%), a madeira interfere menos no vinho e, mesmo que ainda tão jovem, já há espaço para a fruta mostrar suas qualidades sem aspereza. Nada da concentração de extrato e taninos da década passada, a famosa nota de pimentão agora é apenas um adorno em um conjunto bastante complexo.

 

Santa Carolina Herencia Carménère 2019
Peumo (Colchagua), Chile
R$ 1.389,58 - Casa Flora / Porto a Porto
94 pontos

Nesta safra a Carménère recebe 10% de Cabernet Sauvignon de Cachapoal (que aporta frescor e firmeza). A Carménère, 70% vem do vinhedo de Peumo (Colchagua) e 20% vem de Los Lingues (Colchagua), fermenta de forma espontânea em tanques de inox e segue para estágio em barricas francesas e foudres (12 meses em cada recipiente). Na taça, o visual já se mostra mais translúcido que nas safras mais antigas mas sem perder a intensidade. Nariz com frutas vermelhas e negras, frescas e maduras, com flores secas, terra, páprica e capuccino. Na boca a ótima e integrada acidez ajuda na sensação de fluidez do conjunto, com taninos sedosos e mais notas de especiarias no final. Um vinho que reflete o bom momento da vinícola e da variedade. De peso restou apenas a garrafa.